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Esta página iniciou-se em nove de Setembro de 2013, tem quatro meses e ultrapassou as cinco mil visitas.

 

No fundamental, com ela, tentámos criar contra corrente à desinformação que impediu, desde 2008, a percepção do que se passou com o ‘’processo BPN’’. A nacionalização, os fins que servia e veio a servir, a forma como foram manipuladas as questões judiciais e criminais, o progressivo e incontrolável aumento das dívidas e imparidades em défice público, a venda, a sucessão de manobras para deixar incólume a SLN e a sua estrutura, permitindo-lhe mesmo que se reestruturasse e consolidasse nos mesmos moldes e com o mesmo perfil que tinha quando, a coberto da administração tirânica e centralista de Oliveira e Costa, dava cobertura a uma cadeia de negócios especulativos de legitimidade duvidosa.

 

Tentámos clarificar também o âmbito do que deveria ser objecto de pública contestação e de denúncia. Clarificar sobretudo o que eram os negócios privados, pelos quais devia responder património e bens privados, e o que eram negócios públicos, que, de alguma forma, mobilizavam e sangravam o bem e o património público.

 

Esta é uma questão crucial.

 

Demos como exemplo uma questão que, não o omitimos, esteve, do ponto de vista pessoal, na origem de uma atenção especial que demos ao ‘’caso BPN’’:  O caso das colecções de arte, supostamente do BPN, nomeadamente a colecção de pintura de Miro e a ‘’colecção egípcia’’.

 

Embora, como já aqui expusemos, seguíssemos o ‘’caso BPN’’ desde muito antes da nacionalização, por razões mais abrangentes, que tinham que ver com a suspeita de que as especulações que iam tomando conta da actividade bancária e financeira nos conduziriam ao atoleiro.

 

Deste ponto de vista, a atenção com que seguíamos o BPN era a mesma com que seguíamos o BCP, o BPP e todos os outros, nomeadamente a CGD.

 

Não era desde o início da década de 2000 óbvio que a CGD estava a interferir de forma inesperada no suporte às manipulações financeiras que ocorriam em outros bancos e em outras empresas de capital predominantemente financeiro? Não era óbvio que a roleta bolsista especulativa que incidia sobre o capital social de muitas empresas começava a lidar com uma descolagem perigosa e absurda entre o seu valor em cotação bolsista e o seu valor em real capacidade produtiva? Não era já óbvio que as contabilidades e balanços serviam apenas os programas de manipulação financeira?

 

É que o problema do BPN também parte daí, do suporte financeiro às manobras especulativas da SLN sobre o capital de sociedades fantasmas.

 

Pressupostamente, a aquisição das colecções de arte pelo BPN era um negócio privado. Se o BPN não tivesse sido nacionalizado, o BPN assumiria os riscos dos seus investimentos e agiria, cível e criminalmente contra os vendedores, se fosse o caso.

 

Porque razão a Caixa Geral de Depósitos iria arrestar esses bens como garantias, se partia do princípio de que eram fraudes, não existia paridade, nem remota, entre os valores a recuperar e os valores desses bens?

 

Era desde logo óbvio o que sempre se tentou omitir. As colecções de arte não eram propriedade do BPN, eram propriedade da SLN ou de offshores do grupo, embora tivessem sido adquiridas com créditos do BPN. Constituíam, de resto, uma insignificância no âmbito dos valores globais por que a SLN era responsável no cômputo do ‘’buraco BPN’’.

 

Porque razão as colecções de arte foram admitidas pela nova administração do BPN como garantias dos créditos concedidos à SLN? Tudo parece indiciar um ‘’complot’’ entre a SLN e a nova administração do BPN nacionalizado para beneficiar a SLN e a deixar impune ou incólume.

 

Ora bem. Isso permitiu que o Estado desviasse as atenções do que era importante, dos valores astronómicos em jogo, mas sobretudo ofereceu à multidão desinformada os bodes expiatórios que serviriam de pasto à cólera. E a partir de então difundia-se a ideia de que o caso BPN se circunscrevia a que os portugueses estavam a pagar uma ´´colecção egípcia’’ e uma colecção de pinturas de Miro.

 

E ficamos todos surpreendidos quando sabemos que as pinturas de Miro não podem responder pela dívida da SLN, porque afinal não pertenceram nunca à SLN, pertencem, ainda, a umas offshore, que sendo todavia da SLN, agora GALILEI, não podem responder pelas dívidas da SLN.

 

Mas ninguém quer prestar atenção a esta trapalhada e a este cúmulo de contradições e incongruências. Graças a esta grande mascarada os portugueses entraram na convicção de que o Estado está a lançar em défice público uns milhares de milhões de Euros alegando as responsabilidades da SLN perante o BPN, porque Cavaco Silva e Rui Machete compraram e venderam umas acções ao BPN, como fizeram todos os portugueses que tinham umas poupanças com acções do BCP, da EDP ou do Belmiro de Azevedo.

 

É para isto que servem os jornais e a televisão, para criarem este emaranhado de tópicos dispersivos.

 

As próprias autoridades judiciais concentraram as suas atenções nos negócios privados. Os processos que decorrem têm todos como motivo negócios privados, porque foram os negócios privados que desabaram sobre a vida pública.

 

O que não há é coragem para investigar as razões que fizeram os negócios privados desabar sobre a vida pública. Porque não foi no âmbito privado que os negócios privados desabaram sobre a vida pública, foi no cruzamento e na utilização dos poderes que confere o exercício do poder público e político com os negócios privados.

 

Bem, esta intervenção tinha por móbil demarcarmo-nos do barulho que impede a avaliação serena da tragédia.

 

E para nos demarcarmos não podemos deixar de colocar mais uma questão.

A quem serve, que forças ocultas se movem hoje na sociedade portuguesa, às quais é tão oportuno o jogo de omissões e encobrimentos que o Estado e o poder político e judicial administram?

 

Porque razão tem tanta recepção, no meio que tenta desesperadamente liderar a revolta, todo o lixo de desinformação que o poder político vai difundindo?

 

Pode passar-nos despercebido que o regime parece ter um Plano C. Que a oligarquia financeira revanchista que se apropriou dos dispositivos de poder tem um Plano C, que é, em última instância o seu almejado fim.

E o Plano é promover a derrocada das instituições da república, fazendo os portugueses crerem que o que entrou em falência foi a democracia e o regime constitucional e que tudo aconteceu em virtude de uma conspiração comunista em curso desde 1974.

 

O próprio governo e o Presidente da República não insinuam sem pudor que o que impede a governação, ou a governabilidade é a Constituição? Que são os limites constitucionais e institucionais à prática governativa que limitam o horizonte das soluções? Não é clara na atitude do governo a sua aversão à Constituição?

 

O governo e a oligarquia financeira que o suporta não fazem permanente apelo a uma nova ordem institucional que coloque os interesses dos ‘’motores económicos e financeiros’’ à frente dos interesses dos cidadãos e da democracia social e política?

De modo que o Plano C do regime é a suspensão das garantias constitucionais, das liberdades democráticas, dos partidos e dos direitos.

Este é o genuíno programa do regime. Que tem a cumplicidade daqueles que, fazendo da democracia e das garantias constitucionais o seu primeiro alvo, tentam liderar a revolta e a indignação.

E é ao seu serviço que tem estado a comunicação social, no seu conjunto.

A memória de Salazar continua a pender sobre a cabeça dos portugueses como uma espada de Damocles.

 

Esta é a verdade, meus senhores. E é por isso que o vosso barulho é para mim a demonstração de que o regime tem muitos mais cúmplices do que parece.


 

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