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Por fim, a Christie’s editou online o catálogo para as sessões que decorrerão em Londres nos próximos dias 4 e 5 de Fevereiro, nas quais serão apresentadas as oitenta e cinco obras de Joan Miró que na expressão da leiloeira ‘’o Estado português ordena vender’. E que supostamente seriam aquelas oitenta e cinco que continuamos a não conseguir, com rigor, determinar a quem pertencem e a quem pertenceram, porque razão estão em posse ou propriedade do Estado português, porque razão objectiva e sem ambiguidade respondem pelas dívidas da ‘’massa insolvente’’ do BPN perante o Estado português e o que tinha afinal a SLN/GALILEI ou quatro ‘’offshore’’ do grupo a ver com o assunto.

 

Se não fosse a mais crassa das ingenuidades, pareceria oportuno perguntar porque razão os meios de comunicação mentem tanto, em cumplicidade com ministros e todo o cortejo de entidades e instituições que nós pensamos que estão obrigadas à verdade e à lealdade aos portugueses.

 

Até há pouco, a verdade era que as pinturas estavam na posse e propriedade do Estado porque pertenciam ao BPN, em razão de constituírem garantia sobre um crédito concedido pelo banco a uma empresa espanhola, raramente nomeada. Tal informação nunca foi claramente desmentida pelos responsáveis pela administração do ‘’buraco BPN’’.

 

Soube-se e admitiram depois que afinal cerca de metade das pinturas pertenciam formalmente a quatro ‘’offshore’’ detidas então pela SLN e agora pela GALILEI. Tal pôde saber-se porque a GALILEI admitia que o Estado português não podia dispor das obras, porque os administradores das ‘’offshores’’ andavam sem paradeiro e a SLN não conseguira ainda encerrar a sua contabilidade.

 

Sabia-se também do envolvimento das ‘’offshore’’ desde que, em 2008, Cadilhe admitira que as pinturas de Miró já tinham custado, só em despesas de conservação e manutenção cerca de setenta milhões de Euros, respeitando quarenta milhões a comissões pagas aos administradores de quatro ‘’offshore’’ pela venda, nunca se soube se efectuada, das pinturas.

 

O novelo começava a perder ponta para pegar a quem o quisesse desenovelar.

 

Ora, para descrever neste espaço todos os episódios contraditórios que a comunicação social já vendeu acerca da proveniência, legítima propriedade ou posse e voltas dadas pelas oitenta e cinco obras de Miro, escreveríamos já o livro que temos que adiar para depois de realizado o leilão.

 

Para já, devemos de facto reconhecer que andamos há uns anos, também nós, perdidos em conjecturas. Temos sido conduzidos no labirinto, como marionetas, pelos sucessivos responsáveis políticos pela administração da novela.

 

Analisando hoje os catálogos editados pela Christie’s, ficamos a saber que as obras passaram directamente de um coleccionador privado japonês para a propriedade do actual proprietário, o Estado Português que ordena a sua venda, em três períodos, uns em 2003, outros em 2005 e outros ainda em 2006. É o que expressamente consta nos catálogos da Christie’s.

 

Catálogo 1

Catálogo 2

Catálogo 3

 

Perdoem-nos o impulso e a tentação de permanecermos nas conjecturas. Vamos tentar retirar um pouco o véu a esta charada.

 

Num qualquer momento por volta de 2001, pelo que têm divulgado os jornais e as autoridades, o BPN terá emprestado a uma sociedade espanhola uns milhões de Euros, talvez cerca de oitenta, para comprar a um coleccionador privado japonês oitenta e cinco obras de Joan Miro, ficando as obras como garantia do crédito concedido.

 

Tudo leva a crer que a empresa espanhola deixou as obras à guarda do coleccionador a que as adquirira.

 

Uma vez que a empresa espanhola entrou em incumprimento, não é claro quando o BPN executou as obras de Miró. O BPN perdia um crédito mas ganhava um investimento, que vieram depois alegar que era tóxico.

 

Era tóxico porquê? Porque de seguida o BPN vendeu as pinturas tóxicas à SLN e a quatro ‘’offshore’’ da SLN, concedendo-lhes de novo um crédito para as adquirir.

 

Recebido o crédito, nem a SLN nem alguma das ‘’offshore’’ pagaram as pinturas que adquiriram, deram de novo as obras de garantia ao BPN. E já lá vão duas compras da colecção Miró por parte do BPN.

 

Não contente, o BPN ainda pagou quarenta milhões de Euros a quatro administradores das ‘’offshore’’ da SLN por venderem as pinturas de novo ao BPN.

 

E gastou mais trinta milhões na conservação e manutenção das obras, que tudo leva a crer nunca saíram do Japão e viajaram agora do Japão para Londres.

 

E já lá vão três compras.

 

Bem, continua por esclarecer a razão porque os portugueses não conheciam imagens, nem sequer uma listagem rigorosa das obras de Miro que alegadamente lhe pertencem desde a nacionalização.

Em vinte de Dezembro a Christie’s fizera divulgar umas fotos em que apareciam quatro pinturas a serem desinstaladas ou instaladas de ou numa parede. Não se consegue entender se estão a ser recolhidas no Japão, ou a ser instaladas nas paredes da sala de exposição da Christie’s. Mas são só quatro, aquelas que entretanto se divulgavam e descreviam, porque eram supostamente as ‘’highlights’’ da colecção. Não eram, como se pode ver agora pelo catálogo.

 

Sem dúvida as pinturas de Miro têm agora imagens e descrição, foram editadas no catálogo da Christie’s. Mas uma imagem não é uma obra e sabemos através do catálogo que todas elas trazem um itinerário soberbo de visibilidade, quer no que respeita a proprietários, quer no que respeita a exposições. Fotografias tinham pois há muito.

 

Há um lugar onde nunca foram vistas, pelo menos com o testemunho de alguém credível, que não tenha feito parte da tramóia. Foi num tal cofre da CULTURGEST para onde foram recolhidas por várias camionetas. Grande parte das obras são em papel, pequenos desenhos coloridos.

 

Talvez venhamos a verificar que as nossas suspeições não tinham fundamento. Mas não restarão dúvidas de que foram alimentadas com generosidade. Para quê? Eles lá sabem.


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