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O leitor deve ter já entendido que chegaria uma altura desta narrativa crítica em que teria que abordar o assunto de uma forma pessoal.

 

Correndo o risco de ser mal entendido, não me vou esquivar a fazê-lo.

 

Desde há cerca de dez anos que, assistindo ao progressivo colapso da máscara com que tentaram encobrir o assalto aos dinheiros e património público, sendo óbvio que não era possível esconder durante muito tempo os procedimentos e dispositivos que foram usados para cruzar bens e meios públicos com interesses privados, nomeadamente na partilha e distribuição de fundos comunitários, eu anunciava que, mais tarde ou mais cedo, iria eclodir e iríamos assistir a um degradante espectáculo muito português.

 

Começava a avolumar-se um ruído, uma multidão ‘’silenciosa’’ de anónimos ou identidades ambíguas, sussurrando boatos ou clamando meias verdades, mobilizados em torno de dois objectivos, o de transferir e envernizar culpas e o de ajustar contas.

 

Toda uma massa de beneficiários intermédios da cadeia de corrupção, assustados pela expectativa de as suas pequenas migalhas serem expostas no cúmulo da tragédia, ou mesmo de se tornarem bodes expiatórios, engrossaria as fileiras dos farsantes, denunciando pequenos delitos, apontando o dedo na rua, como acontecera de resto, já, nos anos de 1974, 1975 e 1976, em que a melhor forma de ganhar um concurso público ou conseguir uma promoção era mostrar uma foto do concorrente vestido com a farda da mocidade portuguesa.

 

Foi fácil, nomeadamente desde 2008 e 2009, quando se inicia a rotativa e velhaca instrumentalização da justiça e da comunicação social no ajuste de contas entre os diversos sectores políticos da oligarquia financeira, administrar este espírito, transformando-o no ruído que garantiria esconder as grandes conjuras em que todos estavam envolvidos.

 

Foi esse espírito que deu cobertura ao facto de chegarmos ao fim de 2013 e constatarmos que os únicos processos em instrução criminal, relacionados com o BPN serem o de Oliveira e Costa, que responde por si e por todos os seus sócios, o de Duarte Lima que importa, pelo que foi divulgado, em cerca de quarenta milhões de Euros e o do poeta comunista, acusado de burlar Oliveira e Costa em cinco milhões de Euros.

 

Satisfeita a ira e a ânsia de ajuste de contas dos portugueses e da maioria silenciosa, quatro mil milhões de Euros continuam a rolar na roleta do casino em que se transformou Portugal.

 

Mas este estado de coisas parece servir toda a gente, todos mais interessados em ajustar contas com o vizinho do que em, objectivamente, pôr fim ao descalabro. Porque a maioria dos portugueses parece alimentar secretamente no espírito a esperança de que, na crise, se fazem bons negócios.

 

Ora, todos sabemos que um dos negócios que mobilizou sectores decisivos e decisores da classe média portuguesa, que foi aquela que o estado mais protegeu na distribuição das riquezas acumuladas pelo saque, foi a educação e a formação profissional. Basta constatarmos que não deve haver um político em Portugal que não dê umas aulas numa universidade e não tenha ganho uns dinheiros na formação profissional.

Por isso temos hoje em Portugal duas ou três gerações altamente qualificadas por diploma, mas sem emprego. Porque o ensino foi sobretudo um negócio. E para o ensino ser um bom negócio tem que haver muitos alunos, sobretudo em cursos baratos, e têm que se emitir muitos certificados.

 

Por isso também existem muitos, mas mesmo muitos arqueólogos em Portugal. Eu assisti, por vezes contestando, à formação de gerações deles.

Os mais velhos contestam os mais novos. Os mais novos contestam os mais velhos. Mas, na verdade, todos se replicam uns aos outros. Todos aprendem uns com os outros.

 

Arqueologia? Não. Aprendem as formas, na maioria dos casos velhacas, de navegar na vida.

 

É a razão porque eu terei que abordar também esta questão de uma perspectiva pessoal.

 

Porque em parte quem tornou o assunto BPN no caso de uma ‘’colecção egípcia’’ e desviou para aí as atenções foram os arqueólogos.

 

Ora, a ‘’colecção egípcia’’ acabou por se tornar tão mediática pela razão simples de eu ser arqueólogo. E de todos saberem que a colecção não ficaria enterrada no BPN. Afinal, acontecera já com outra, que todos os arqueólogos quiseram administrar, mas que deveria ficar confidencial, caso contrário seria falsa, ou talvez roubada num museu português.

 

De modo que se foi caindo nestas contradições.

 

Eu não sou arqueólogo, não estou autorizado a realizar trabalhos arqueológicos.

 

Os objectos que constituíam a colecção não são arqueológicos, porque não têm contexto arqueológico. Para mais são falsos.

 

Mas os arqueólogos não admitem o facto de terem estado afastados do seu estudo e da sua apresentação. Para quê, para atirarem com eles para a feira da ladra como latoaria?

 

Eu não o permiti alegando que não o poderia fazer antes de os senhores arqueólogos me demonstrarem que eram falsos. E demonstrei, até ao momento sem contestação, que são autênticos. E assim penso tê-los protegido.

 

Mas os arqueólogos tinham exarado sentença de falsidade sobre uma anterior colecção que foi adquirida por outra entidade privada.

 

Mas depois ficaram irados porque eu estava encarregue da sua tutela e estudo. Mas tinha sido eu o único que sempre alegou que na sua maioria os artefactos que a compunham eram autênticos. O que não desmobilizava os arqueólogos de, nas minhas costas, sussurrarem que eu não era arqueólogo e não devia ter a tutela deles.

 

E agora aparece uma comissão de três arqueólogos que hão de emitir um parecer sobre a genuinidade dos artefactos.

 

Mas são quem? Aqueles que foram meus colegas e por quem eu me afastei de muitos lugares para eles poderem passar? Aqueles cujas teses li semanalmente e frequentavam a minha casa com dúvidas e algumas certezas? Os senhores catedráticos a quem dei passagem à porta da igreja?

 

O mais insólito de tudo e o que não deve ser perdoado aos arqueólogos, declararei depois a quais e porquê, é que os senhores arqueólogos, para acautelarem que uma dada colecção, que no fundamental já conheciam, é falsa e não lhes causará incómodos, tornaram-se numa peça nuclear da defesa de Oliveira e Costa e da Sociedade Lusa de Negócios, criando a farsa que impediu durante tempo demais que todos pudessem ver a realidade.

 

E isto não pode ser perdoado aos senhores arqueólogos.

 

E entretanto mais uma questão.

 

Se a colecção BPN é falsa e constituída por réplicas ou cópias, os artefactos em que se inspira ou que toma como modelos são egípcios ou incas?

 

Os senhores arqueólogos são capazes de declarar por sua honra que não conheciam a colecção BPN e por isso estiveram convencidos de que se trata de uma colecção de ‘’arte egípcia’’?

 

 

 

 


 

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3 comentários

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De MCN a 18.09.2013 às 22:35

Eu duvido, COM TODA A LEGITIMIDADE, de que os senhores arqueólogos tivessem alguma vez visto a colecção, fazendo fé no que alegaram e nas considerações que fizeram sobre ela. Mas estou também convicto, legitimamente, de que os senhores arqueólogos conheciam muito bem a colecção, porque, entre muitos outros factos, alguns arqueólogos do círculo de um arqueólogo muito bem inserido no meio, pôde utilizar e fotografar três máscaras similares às que constituíam a colecção e com elas montar uma imagem de uma máscara, que estaria alegadamente capturada pela polícia turca. Não competirá aos senhores arqueólogos desvendar esse mistério?
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De MCN a 18.09.2013 às 23:42

SE os arqueólogos disseram com toda a convicção que se tratava de uma colecção de arte egípcia, ou talvez inca, eu tenho legitimidade para duvidar de que a tenham visto. Mas, por outro lado, podendo comprovar que havia arqueólogos, bem inseridos no meio, que puderam fazer uma montagem com fotografias de algumas máscaras similares das que compunham a colecção, tentando simular que era apenas uma que se encontrava na posse da polícia turca, eu estou igualmente e legitimamente convicto de que os arqueólogos conheciam, muito bem, a colecção.
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De MCN a 18.09.2013 às 23:01

Relativamente ao que respeita ao assunto de uma colecção de ''arte egípcia'' adquirida pelo BPN, declaro o seguinte:
Eu não estou impedido, por qualquer determinação judicial de falar livremente sobre o assunto.
Se não o tinha feito ainda, o que resultou em meu prejuízo, foi por consideração, que tento preservar, por muitos colegas meus.
O que digo deve ser sempre entendido nesta condição. A mim, não consigo entender porquê, foi-me absolutamente sonegada toda a informação acerca do que na instrução do processo consta e corre no que respeita à alegação de que a colecção é falsa, das diligências que correm para o apurar e de um famigerado relatório elaborado por três arqueólogos.
Vão, por portas travessas, murmurando uns boatos em que não faço fé.
E devo acrescentar que um dos motivos que me levou a expor agora o assunto foi o facto de ver a Dra Luisa Penalva, MNAA, colocar o registo ''gosto'' no cometário de um lorpa, insisto em lorpa, que na página oficial do MNAA, para defender a posição que o Museu já não conseguia defender, trouxe, de forma insinuante, o assunto.
Como me bloquearam, não tive oportunidade de perguntar à Dra Luísa Penalva se se recordava em casa de quem o seu pai, o Dr. Carlos Penalva, em Évora, antes de ir para Lisboa estabelecer-se como antiquário, jantava quase diariamente e passava o serão, a desfazer as dúvidas que lhe tinham surgido durante o dia.
Se não reagisse agora, correria o risco de ficar calado, para preservar a hipocrisia e o espírito velhaco dos arqueólogos e de outros intervenientes na tutela sobre a cultura em Portugal.

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