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Foi uma intervenção na página de Facebook do Museu Nacional de Arte Antiga, da autoria de uma sua funcionária, tentando suprir com manobras de diversão de baixo carácter a ausência de resposta do Museu e da sua Direcção a várias questões que colocava, que me ditou o imperativo já indeclinável de iniciar algo que adiara mediante um compromisso comigo próprio.


Tinha decidido não abordar explicitamente, até conclusão do processo judicial em curso, o assunto que se relaciona com o já correntemente denominado caso da ‘’colecção egípcia’’ do Banco Português de Negócios, BPN.

 

Mas, na verdade, no contexto do adiamento incompreensível, para mim, da conclusão do processo, bem como da iminência de, sempre que alguém me quiser contestar, as alusões e insinuações serem o derradeiro recurso de quem nada mais tem para alegar, vou ter que o fazer de imediato.

 

Todos os arqueólogos que me conhecem, desde há muito, sabem que tenho desde há várias décadas diferenciais estruturais de opinião acerca de assuntos cruciais. Um dos que regularmente vem a lume diz respeito ao contexto em que decorre a prática arqueológica. Todos sabem que sempre me opus, intelectualmente porque nunca exerci a arqueologia que eles exercem, ao modelo empresarial de sustentabilidade da arqueologia que se instituiu em Portugal, que coloca o essencial da prática arqueológica no âmbito do ‘’salvamento’’ do património em risco.


Abordarei mais adiante esta questão de forma estruturada, noto desde já que, no modelo actual, os arqueólogos exercem a sua actividade de salvamento do património em risco a cargo e por encargo dos agentes que o colocam em risco.


Bem, devo desde já caracterizar o que sempre me surpreendeu no caso da ‘’colecção egípcia’’ do BPN. Associada desde o início ao assunto de uma colecção de pintura da autoria de Juan Miro e outra de uma colecção de moedas emitidas pela Casa da Moeda Imprensa Nacional.
O episódio do BPN é o caso nevrálgico do emaranhado de episódios de corrupção financeira de entidades públicas e privadas que está na antecâmara da trágica crise financeira que agora é alegada para apertar o garrote aos portugueses e à Nação. A sua dimensão ainda não foi, em minha opinião, exposta aos portugueses. É gravíssima e os montantes em causa têm uma dimensão ainda incalculável.


Vamos remontar ao momento em que a supervisão, por não mais o poder ocultar, expõe a realidade da ruptura iminente do banco, o que determina profundas alterações na sua administração e a eleição de Miguel Cadilhe para a Presidência do Conselho de Administração.
Foi a administração de Miguel Cadilhe que lançou o mote a que depois todos, incluindo a gestão pública, se iriam agarrar para mascarar a situação e continuar a usar o banco como canal de fuga de capitais públicos e privados. A situação dramática do banco, de acordo com a análise financeira de Cadilhe, tinha na origem o investimento de Oliveira e Costa nuns ‘’activos tóxicos e extravagantes’’ para branquear capitais.
De acordo com os dados divulgados e conhecidos, dois destes ‘’activos tóxicos’’ custaram ao banco quarenta e cinco milhões (45.000.000) de Euros, correspondendo cinco milhões (5.000.000) à dita ‘’colecção egípcia’’.


Em dois de Agosto de 2011, instado em sede parlamentar, o governo da coligação PSD/CDS declararia, sem equívoco, que a operação de saneamento da contabilidade do BPN custara já ao Estado quatro mil e quinhentos milhões (4.500.000.000) de Euros.
Face a estes dados, sempre que se fala no BPN e no descalabro, vem de novo à colação a colecção de pinturas de Miro e a ‘’colecção egípcia’’.


Eu estou hoje convencido de que não há europeus mais vulneráveis ao êxtase colectivo em frente dos monitores de televisão e das primeiras páginas dos jornais do que os portugueses. È fácil enganar os portugueses. É sobretudo fácil vender a uma certa intelectualidade opulenta, que manipula na base a opinião, a encenação que lhe convém.

 

O caso da ‘’colecção egípcia’’ tinha todos os ingredientes. Tinha mesmo um poeta comunista.


Devo dizer que eu, que ora sou dado como o ‘’estudioso’’ que preparou o ‘’dossier’’ técnico que acompanhava a colecção, ora sou dado como o promotor da venda, fui desde logo afastado do processo e nem como testemunha pude intervir.
Para tal contribuiu o pânico dos arqueólogos, que desde logo alegaram que eu não era arqueólogo e não estava habilitado a pronunciar-me sobre ‘’coisas egípcias’’.


Mas essa ‘’história’’ dos arqueólogos era já muito antiga e precedia em muito o episódio BPN. E a verdade é que eu me tenho mantido em silêncio para preservar a reputação dos meus colegas arqueólogos.
E como não quero comprometer os meus colegas arqueólogos, que alegam que eu não sou arqueólogo, teria que me multiplicar em exercícios de retórica para, pelo menos, testemunhar que a coisa não é de todo como tem sido apresentada aos portugueses, sem comprometer os arqueólogos.


Vou fazer todos os esforços para não comprometer ninguém, sem adiar, porque tal não é já para mim comportável, a reposição da verdade. Sabendo, todavia, que os mecanismos do segredo de justiça, administrados com a habilidade a que nos habituaram, colocam sempre os interessados no desconhecimento do que todos sabem.

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