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Um tenebroso silêncio conspirativo se abate sobre ti enquanto gritas.

Um tenebroso sussurro corre ao lado da tua voz indignada, sugerindo o silêncio e invocando os mestres. O Krishnamurti, o Fernando Pessoa, Buda, os deuses e os sacerdotes, todos, com as mais pérfidas mas sábias alusões te convocam para o silêncio. Está tudo pronunciado. Repete com fé as orações. Medita, procura-te, entra para dentro de ti próprio, conhece-te. A oração proporcionar-te-á o conhecimento dos outros e do universo. Iogas, reikis, platões, atlândidas. Os produtos tóxicos com que a maioria silenciosa, ateia, liberal e agnóstica adormece o rebanho.

Enquanto alternas entre o grito e o ritual de conformismo, uma poderosa máquina que administra toda a tua vida vai-te servindo, na mais encantadora embalagem, o rebuçado da tua indignação.E dizem-te: O importante são as pessoas. Os bancos disseram-te durante décadas, nos balcões de atendimento, ao telefone, em panfletos e em grandes ecrãs panorâmicos: O importante são as pessoas. O importante és tu. Eu? Perguntas. Importante para quem? Para mim?

 

Durante dois meses tive também que resgatar a minha identidade. A minha identidade fora obstruída pelos interesses da grande máquina. Durante quase uma década fui espoliado, consecutivamente, da minha identidade.

Para que a defesa da minha identidade não colidisse com outros interesses, fui-me acantonando num silêncio vigilante.

 

Assenti em não ser arqueólogo. Deixei na expectativa a denúncia da hipocrisia que subjaz a toda a retórica da ‘’defesa do património’’, que é o suporte e não mais da prática da teoria das indústrias culturais.

Persisti em denunciar os modelos, tentando não citar episódios e protagonistas. Deixei-me insultar por sábios e doutores grosseiros em fóruns e lugares públicos.

 

Deixei que muitos assumissem a autoria de muito que realizei durante décadas de vida.

 

Adiei o confronto com os sábios hipócritas que intervêem na documentação em arte, para não vulnerabilizar as suas associações com o mercado obscuro e com as instituições obscenas.

Não me era legítimo pôr em causa a sustentabilidade das ‘’indústrias culturais’’. Estava a tirar pão da boca a amigos e inimigos.

 

Durante cinco anos, sempre que quis denunciar que o modelo vigente para a sustentabilidade da arqueologia nos conduzia a uma beco sem saída, fui insultado nos locais públicos de debate, com alusão à ‘’colecção egípcia’’ do BPN, com a qual a consciência dos arqueólogos não convive bem.

 

Mas, na verdade, eu sou fiel a esta denúncia desde há mais de quarenta anos, quando se começou a tornar óbvio que o caminho estava traçado para esse alvo. Quem traiu foram os outros. E todos sabem que a questão mais premente que a ‘’colecção egípcia’’ ou grande parte dela levantaria seria a da procedência, não a da genuinidade. E que o falso só pretende descartar a procedência. Mas os senhores arqueólogos continuam a fazer de contas que não entendem isto, que foi o que aleguei sempre. Não o negam, remetem-se ao silêncio.

 

Para defenderem até às últimas consequências o seu último reduto de sustentabilidade, os arqueólogos serão progressivamente mais frios, mais calculistas e mais silenciosos. Nunca divulgarão a notícia, por iniciativa própria, de que, por decisão do Tribunal Administrativo, as obras de construção da Barragem do Tua foram suspensas. Nem manifestarão qualquer solidariedade para com a ARQUEOHOJE, que, ao que tudo indica, sobrevivia do acompanhamento arqueológico das obras de construção da barragem, que os ambientalistas denunciavam como um atentado ecológico.

 

Mas, num ambiente precário de sustentabilidade e sobrevivência, os arqueólogos cultivavam já entre si a concorrência desenfreada e calculista muito antes de aderirem ao modelo empresarial.

 

O silêncio, então.

 

Por vezes fico com a ideia de que tive que me calar para que os outros fossem sustentáveis. Ninguém deve beliscar a sustentabilidade dos outros, porque o importante são as pessoas, dizem.

O ror de gente que prossegue triunfalmente na sua sustentabilidade e prosperidade sustentada no silêncio. E na indignação sabiamente controlada dos outros.

E o ror dos que são silenciados pelo silêncio da conjura.

 

O silêncio será desta vez a minha arma, para resgatar a minha identidade. Despertei. Há dois meses que tomei a decisão de não mais me calar. Também sou uma pessoa e tenho uma identidade para resgatar.

 

Durante estes dois meses, demonstrei que a retórica ruidosa da defesa do património era a mais torpe das hipocrisias. Poderia mesmo servir para meia dúzia de controladores das instituições venderem os seus bens e haveres ao Estado, a coberto da defesa do património e com a cobertura dos grandes operadores de mercado.

 

Pode servir para os arqueólogos exigirem o acompanhamento arqueológico de atentados contra o ambiente e contra o património.

 

Denunciei os mais sacralizados templos de emissão de doutrina sobre documentação em arte, como o Gabinete Técnico do Museu do Prado, como extensão dos grandes dispositivos que controlam como monopólios o mercado. Demonstrei não apenas que usam procedimentos conspirativos inadmissíveis, mas que, para além disso, falseiam os dados documentais.

 

Ninguém me contestou. As denúncias eram violentas, mas ninguém me contestou. Tentaram silenciar-me usando de todos os meios, incluindo a censura de me vedarem o acesso a espaços públicos online a que tenho tanto o direito como qualquer outro. Os abusos cometidos contra a minha liberdade de expressão em páginas de Facebook como as do Museu do Prado ou do Museu Nacional de Arte Antiga atestam o que alego.

O silêncio. A impunidade do silêncio.

 

Comigo talvez se enganem. Eles podem calar-se, eu não deixarei de falar. E ainda tenho mais para dizer do que o que disse até agora. Muito mais.

 

E para já dou como adquiridos dois factos.

 

Primeiro.

Em Portugal existe uma pintura de Velazquez que todos os defensores e amigos do património querem silenciar. Porque o Manuel de Castro Nunes, malogradamente é um dos seus proprietários. E o Manuel de Castro Nunes não cede aos interesses da associação corrupta do mercado com as instituições.

 

Segundo.

Ao admitir a autenticidade da ‘’colecção egípcia’’ do BPN, o Manuel de Castro Nunes fez o que os senhores arqueólogos não fizeram por má consciência e interesses corporativos, garantindo que os senhores arqueólogos terão em breve a ‘’colecção egípcia’’ para cultivar os seus delírios, ficando comprovado que a ‘’colecção egípcia’’ foi resgatada graças ao cuidado dos senhores arqueólogos, porque só passou a ser genuína quando os senhores arqueólogos, usando de uma metodologia científica o admitiram.

 

Afinal, a colecção Estrada já é autêntica.

 

 

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