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Prosseguindo então com este testemunho, pessoal e intransmissível.

 

Eu sou e fui antiquário. Era antiquário muito antes de me licenciar em História e de ser arqueólogo.

Esclareço, para quem não saiba, ou finja não saber, que antiquário é um sujeito que compra e que vende antiguidades. Por extensão, chama-se antiquário a um sujeito que negoceia com ou em arte, antiga, contemporânea, ou mesmo actual.

É uma actividade comercial, que tem o seu código ético e deontológico.

 

Habituei-me, desde cedo, a ser consultado por outros antiquários, sobretudo na caracterização, atribuição de cronologia, de estilo e de autoria, quando era o caso, mas muitas vezes acerca da genuinidade e do valor dos objectos mais qualificados que surgiam no mercado. Fi-lo sempre por escrito, ou presencialmente quando quem me consultava assim o requeria.

 

Quando era consultado, nunca firmei a minha opinião em títulos ou diplomas, nem em estatutos. Quem me pedia a opinião confiava no meu conhecimento e na minha idoneidade e isenção, que era reconhecida no mercado.

Deixei sempre claro, em todos os contextos, que a minha opinião seria mais válida se confrontada com outras, concordantes ou discordantes.

 

Houve períodos em que poucos objectos circularam no mercado da capital e arredores que eu não conhecesse e sobre os quais não fosse chamado a dar a minha opinião, ou a contemplar simplesmente quando eram simplesmente óbvios.

E houve períodos em que no mercado da capital e Alentejo, sobretudo, em certos meios, os compradores estabeleciam como requisito que o objecto fosse acompanhado do meu parecer por escrito.

 

.Até 1998, nunca me pronunciei sobre um objecto de arte que circulasse no mercado como arqueólogo. Nem como historiador, reclamando esse estatuto para validar a minha opinião. Fui sempre o Manuel de Castro Nunes, a quem por vezes faziam anteceder o nome por Dr., sem mais especificação. Durante cerca de mais de dez anos, talvez por em algumas circunstâncias me exprimir numa linguagem muito técnica, toda a gente me apareceu convencida de que eu era Engenheiro.

 

Durante muitos anos, habituei-me a ver nos antiquários objectos a que os arqueólogos chamam arqueológicos. Para mim, tinham sido tão arqueológicos como outro qualquer.

 

Vou deter-me um pouco sobre esta questão.

 

Uma pintura sobre madeira da escola portuguesa do Século XVI, pode aparecer num antiquário sem qualquer referência à sua proveniência, seja ao local e contexto para que foi ‘’produzida’’. Mesmo fora desse contexto, é possível, recorrendo a vários procedimentos de observação, desde a análise crítica estilística à laboratorial e comparativa dos suportes materiais, deduzir, sem grande contestação, que se trata de uma obra realizada no ambiente, na oficina ou pelo próprio Vasco Fernandes, ou Cristóvão de Figueiredo, por exemplo. A pintura perdeu já o seu contexto ‘’arqueológico’’ e é possível que não o possa recuperar. Mas, ainda assim, como parâmetro comparativo na análise crítica, poderá vir a ser de importância capital para o estudo analítico de outras obras que conservam todas as referências ao seu contexto arqueológico. Tem pois um valor documental que deve ser cultivado.

 

Em certo sentido podemos sempre dizer que é um objecto com valor arqueológico, ainda que, por precaução, não se deva dizer tal ‘’enormidade’’ a um arqueólogo.

O mesmo se passa com uma cerâmica de ‘’terra sigilata’’ de época romana, com uma fíbula em bronze, ou com um adereço de joalharia. Só que nesses casos os arqueólogos reclamarão sempre que tais objectos, mesmo que tenham sido recolhidos casualmente há cem anos, são arqueológicos.

 

Eu situei-me sempre em desacordo quer com antiquários quer com arqueólogos acerca deste tema. Aos antiquários rebatia que fosse lícito reclamar o estatuto arqueológico de tais objectos, para disso tirar benefício. Aos arqueólogos rebatia o inverso, seja, o espírito com que se ausentavam das suas escavações para darem uns passeios persecutórios pelos antiquários.

 

Escreveria uns bons romances ou novelas narrando os banzés que vi alguns arqueólogos dementes fazerem eclodir, por causa de uma simples fíbula, fraccionada, do tipo corrente ‘’Nauheim’’, que se recolhem às centenas à superfície nas imediações de qualquer estabelecimento romano. Com tais demências, os arqueólogos tornaram-se responsáveis em vários períodos da nossa história recente pelo desencaminhamento de muitos objectos que, não sendo arqueológicos, constituíam ainda excelentes exemplos comparativos no contexto de muitos estudos disciplinares.

 

Mas muito mais predadora do que esta demência foi, a partir de certa altura, outra. Quando os arqueólogos passaram a cultivar uma atitude que se disseminou no meio e que consistia em, no quadro de uma presumida estratégia dissuasora, colarem a todos os objectos que dementemente consideravam arqueológicos a etiqueta de ‘’falsos’’. E assim, supunham, desmotivavam o mercado antiquário de aceitar objectos arqueológicos.

 

Foi desastroso. Porque o mercado lidou com isso com grande habilidade. No mercado sabia-se muito mais do que entre os arqueólogos acerca do que era genuíno e do que era falso. De modo que, em última instância, quando algum arqueólogo pretendia reclamar o estatuto de arqueológico para um objecto para o qual reclamava a atenção das entidades tutelares, já outro arqueólogo, ou dezenas deles o haviam condenado e sepultado numa caixa de cartão com a etiqueta de falso.

No mercado, sempre se abordou e debateram estas questões com toda a naturalidade.

No ambiente da arqueologia instituí-se um hermético tabu. Expor sequer o assunto é, por si, um crime de lesa património.

 

Foi porque nunca me inibi de o expor assim que os arqueólogos, que sempre me consultaram também, assiduamente, como antiquário ou como arqueólogo, dependia do que pretendiam, foram inculcando uma agastada antipatia contra mim. Desde há muito, desde há décadas. Mas nunca frontalmente expressa, sempre, segundo seu hábito, pelas costas e alimentando boatos. Mas eu nunca devi nada aos arqueólogos.

 

Ora, estas questões complexificam-se quando o mercado entra na convicção de que uma boa percentagem de ‘’objectos arqueológicos’’ que irrompem nos antiquários procedem de trabalhos arqueológicos, mais ou menos formais, de arqueólogos. E tal acontece sobretudo quando prolifera a arqueologia empresarial de salvamento.

O mercado sempre falou sobre este assunto em surdina. Eu sempre falei e continuarei a falar bem alto.

 

É neste contexto que quem tem discorrido sobre a venda da ‘’colecção egípcia’’ ao BPN se furta a colocar a questão, desde os ‘’media’’ aos arqueólogos, que, em pânico, alinharam em esconder a trágica burla BPN com um negócio de cinco milhões de Euros.

 

Vamos a factos.

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