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‘’Entre a introdução, ou intróito, e a conclusão, ou o ‘’ite’’, temos então a azeitona apanhada e ensacada e só falta o azeite, só falta que o azeite corra nas bicas dos lagares.
Entretanto, acorrem todos à praça em abono de seus nomes. E eu nem sei se releia Michel Foucault, para botar figura de peralta erudito, se declame as catilinárias, se me perca para ganhar fôlego no bestiário chinês de Jorge Luís Borges. Talvez prefira a jibóia que engoliu um elefante.
Todos querem enterrar o morto do lado de lá do muro, no quintal do seu vizinho.
(…)’’


Quando o Davide Delfino me convocou para lhe responder com este libelo, estava a escrever aos mais dilectos amigos acerca da vitória eleitoral de Donald Trump, para mim já então mais do que óbvia e assegurada duas semanas antes de confirmada pela contagem dos votos.
Eu espero sobretudo que o Henrique Estrada alcance o tom azedo mas indiferente da mensagem e que o Davide Delfino prossiga triunfante no seu itinerário de ascensão aos céus, cortejado por miríades de querubins com bochechas insufladas. Convencido de que resgatou o seu bom nome.

Ora bem, desde o fim de 2008 e inícios de 2009. a equipa responsável pela instalação da para o efeito designada Colecção Estrada no recém inventado Museu Ibérico de Arqueologia e Arte de Abrantes preparava a exposição ANTEVISÃO I. No âmbito desses trabalhos e por mediação do Professor Luís Oosterbek fui convocado para me manifestar não apenas acerca da selecção de objectos a integrar na exposição, mas também sobre a proposta de classificação que as acompanharia.
A equipa, para o efeito constituida pelo Davide Delfino e pelo Gustavo Portocarrero, para o caso mediados pelo Professor Luís Oosterbek, queria também que lhes transmitisse o que soubesse acerca da proveniência dos objectos e conjuntos de objectos.

Importa insistir em que, quando a Câmara Municipal de Abrantes e a Fundação Ernesto Lourenço Estrada subscreveram o acordo ou protocolo através do qual a Fundação cedia à Câmara Municipal de Abrantes as suas colecções para integrarem o núcleo fundador do Museu Ibérico de Arqueologia e Arte de Abrantes, ela se encontrava alojada dentro de um espaço museológico de elevada segurança, devidamente inventariada, parte exposta e parte alojada em contentores devidamente projectados com esse propósito. Para o efeito recolhera-a, projectara o espaço em que havia de ser alojada, acompanhei a sua construção, elaborei o projecto e programa da instalação museológica e reuni, em arquivo próprio, todos os documentos que podiam ilustrar a proveniência dos objectos e conjuntos, nomeadamente catálogos dos leilões em que muitas, talvez a maioria, fora adquirida.DSC02925

 

Houve gente bastante que tivesse visitado a colecção nessa sua residência. A suficiente para que o Davide Delfino e o Henrique Estrada não devam persistir em omissões e mentiras. E eu próprio conservo cópias de toda a documentação.

De resto, o Davide Delfino e o Gustavo Portocarrero tiveram acesso a tudo, pois, para lá do mais, foram depositários do computador onde tudo foi armazenado, nomeadamente tudo o que respeitava aos pressupostos e critérios da programação e do projecto da instalação.

Fiquei a dada altura surpreendido porque o Davide Delfino pediu a minha colaboração para identificar na colecção os objectos que provinham de Joaquim Pessoa. Respondi-lhe com toda a naturalidade que no meu inventário existia um campo denominado ‘’Proveniência’’ e nele encontrava todas as informações de que carecesse. Mas que o próprio número de inventário tinha geralmente uma extensão alfabética, que no caso de Joaquim Pessoa era um ‘’p’’. No caso de o Davide Delfino ser preguiçoso e não querer perder tempo a correr os cerca de três mil registos do meu inventário, podia sempre enviar-me previamente as fichas do seu e eu adicionava os elementos em falta e corrigiria, sempre que se justificasse, as imprecisões.

E assim andava a coisa quando me chegou às mãos o Catálogo da ANTEVISÂO I. Não fora convidado para a exposição nem pareceu a ninguém conveniente saber-se por onde tinha andado a para o efeito denominada Colecção Estrada até surgir magicamente no MIAA. Era sem dúvida curioso, mas viria a revelar-se muito mais, que um elevado número dos objectos mais apelativos dos núcleos ‘’Neolítico e Calcolítico’’ e ‘’Idade do Bronze’’ proviesse de Joaquim Pessoa. No primeiro núcleo apareciam dois ‘’ídolos placa’’ em ardósia, um ‘’báculo’’ em ardósia, um ‘’ídolo’’ em lâmina de osso recortada, um conjunto de pontas de flecha ‘’tipo Palmela’’, a lâmina de um punhal em cobre de horizonte ‘’argárico’’. No segundo, há ainda um machado de azelhas em bronze e uma lâmina de escanhoar.

Porque razão então, a dada altura, corrente já a exposição ANTEVISÃO I e editado o catálogo, o Davide Delfino e o Gustavo Portocarrero se interessaram tão imperativamente na identificação dos objectos que provinham de Joaquim Pessoa?

Para lá de outras razões que já abordei em outro testemunho, importa resgatar da amnésia colectiva o ambiente de polémica obscena que envolveu a exposição ANTEVISÃO I, sobretudo no que respeita ao projecto arquitectónico de Carrilho da Graça. Evitei sempre formular um juízo acerca do projecto de Carrilho da Graça, mesmo quando, com alusões bacocas e viperinas, o Henrique Estrada, como mandatário ou não da Fundação Estrada, me instava no seu blog ‘’Cidadãos por Abrantes’’. Era sem dúvida um colossal oportunismo da parte do Henrique Estrada e talvez da Fundação. Sabendo que eu estava excluído de me pronunciar acerca das questões que tinham que ver directamente com a colecção, quererem ‘’comprar’’ o meu juízo acerca do projecto arquitectónico.
Para lá do mais, como sempre pessoalmente lhes transmiti, as questões pressupostamente técnicas que o Henrique Estrada e a sua milícia de petulantes e peraltas aristocratas opunham ao projecto de Carrilho da Graça apresentavam-se-me como mero e exclusivo conflito venal de interesses, porque destituíam o guru abrantino Nuno CastelBranco. Sempre fui claro, liminarmente claro e leal, não embarco em conspirações dissimuladas, em hipocrisias, em bravatas de classe.

Ora bem. Foi neste contexto que o advogado Santana Maia Leonardo, uma espécie de capitão de ajuntamento de forcados de aquém e além Tejo, entendeu que uma vez que o MIAA não caía pelo projecto do Carrilho da Graça iria cair pelos ‘’falsos’’. E levantou com bravura a questão na Assembleia Municipal, aproveitando a boleia da bravata mediática em torno da ‘’colecção egípcia do BPN.

E foi então que aos arqueólogos Davide Delfino e Gustavo Portocarrero foi solicitado o primeiro ‘’raisonné’’, o ‘’raisonné’’ da colecção Pessoa, com a especificação em caderno de encargos. Os objectos deveriam ser falsos.
De todos os objectos que integravam a ‘’colecção Estrada’’, lavrou-se então um ‘’raisonné’’ sectorial da ‘’colecção Pessoa’’. Os objectos eram todos falsos. Estavam então garantidas e salvaguardadas as ANTEVISÕES II, III, IV e V e as que mais viessem, até já não ser possível manter a ilusão do MIAA. Bastava excluir os objectos que provinham do Joaquim Pessoa.

Ora bem. E ainda assim tudo continuava bem. Até que o Gustavo Portocarrero entendeu por bem declarar insistentemente, face a insistentes interpelações, em sessão ordinária do Tribunal da Comarca de Sintra, que mais de 90% dos objectos que constituíam a ‘’colecção Estrada’’ eram falsos. E que o Davide Delfino, instado por sucessivos intervenientes no colóquio, assentisse com a opinião do seu emérito colega.
Ao proclamar de forma tão peremptória este juízo, o Gustavo Portocarrero não tinha ainda intuído, ou farejado, que se a mesa do colóquio judicial determinasse, em conclusão lavrada em acta, que os objectos provenientes de Joaquim Pessoa e integrados na ‘’colecção Estrada’’ eram falsos, eles seriam, como instrumento de um crime, perdidos a favor do Estado e, como contrafacções, irreparavelmente destruídos, a não ser que o Museu Nacional de Arqueologia ou o Museu da Polícia Judiciária decidissem inaugurar uma secção de falsos.

Mas na verdade, fundamentado nas declarações de Gustavo Portocarrero e Davide Delfino, é legítimo solicitar a perda do resto da ‘’colecção Estrada’’ para o Estado e a sua concomitante destruição. A não ser que a Câmara Municipal de Abrantes se apresente com a intenção criativa e recreativa de instalar o MIAA, um museu do falso.

A hipocrisia silenciosa e conspirativa dos arqueólogos é inominável.

Eu tenho a certeza, não a convicção mas a certeza, de que noventa por cento dos arqueólogos se recusariam em consciência a declarar em tribunal, conhecendo as implicações de tal leviandade, que os objectos em apreço são falsos. Dou de borla e por clemência, este abono à boa fé, à isenção e à responsabilidade da maioria dos arqueólogos. Mas o silêncio é ainda pior do que a mentira?
E agora, senhor Doutor Davide Delfino? E agora, senhor Henrique Estrada?
Entre a introdução e a conclusão deste libelo apanhou-se então e ensacou-se a azeitona. Esperemos que o azeite corra nas bicas dos lagares.
Entretanto vou coligindo, para o meu amigo Davide Delfino, umas passagens de Ovídio.


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. A quem interessa? Introdução

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1 comentário

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De J. Costa a 20.11.2016 às 22:03

Transcrevo o que li algures de um senhor Linhares:

""Sou um velho professor de história, interessado pela arte de uma forma geral e pela arqueologia de uma forma particular. No âmbito destas minhas paixões tive o prazer de conhecer, circunstancialmente, o Manuel Maria de Castro Nunes. Cedo encontrámos caminhos comuns, percursos paralelos, idênticas ânsias e sonhos compartilhados.
Vou ser breve. Acompanhei, jugo que quase desde o principio, a sua participação na orientação, classificação e valorização de uma rara colecção de objectos arqueológicos recolhidos por um individuo de invulgar valor, perseverança, sabedoria e “feeling” de seu nome João Lourenço Estrada. Acompanhei, de perto, os sucessos de tão estreita ligação. Desde o princípio que o Manuel Maria demonstrava um interesse inusitado, na sua já longa vida de estudioso, na relação com o projecto do Sr. Estrada. Foram dias, foram noites, foram horas roubadas ao descanso, eu fui testemunha, dispensados na recolha, estudo e preservação da maior colecção de arqueologia na posse de um português, quiçá de um cidadão do mundo.
Julgo que lhe veio a competir, posteriormente, a preparação de um espaço condigno, onde um sem número de obras de arte seriam arrumadas e expostas com critérios rigorosos de classificação museológica. A nada se furtou! Incansável, mais uma vez fui testemunha, do tempo que roubou à companheira em fase terminal de doença cancerígena… Enfim.
Algo entretanto se passou. A Fundação da Amnésia, no seu mais elementar direito de gestão, organizou o seu projecto como melhor o entendeu.
Chegam-me à mão hoje dois catálogos de exposições preparatórias do que há-de ser o futuro museu. Conhecedor do volume e extensão da colecção, fogem à minha compreensão os critérios da selecção de peças para os catálogos. Concerteza que existem, espero que não sejam aqueles que eu temo. Gente nova chegada ao projecto a seu tempo, pouco ou nada preparada, pode vir a ter desígnios tenebrosos para algo que se queria exemplar, único e de dimensão inquestionável.
Por fim choca-me a “amnésia” da Fundação e dos seus responsáveis. Nem uma pequena, que seja, referência a Manuel Maria Castro Nunes, mau grado usarem, sem rebuço, toda a informação existente e por ele recolhida. Questionei-o, de imediato. Pareceu-me muito triste a sua resposta de que o assunto não tinha importância, fazendo, sempre, questão de ilibar o Sr. João Estrada.
Estão a tempo de corrigir tanta ingratidão. Façam-no e quanto antes, não vá o signatário alimentar com mais algumas informações o desvio e transvio de um projecto eivado de embustes e incorrecções."

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