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Entre Junho de 2004 e Julho de 2005, decorreu na freguesia de Perre, Concelho de Viana do Castelo, uma intervenção arqueológica de emergência no Castro do Vieito, que tinha a infelicidade de ter estacionado na rota do traçado da A28, que liga Viana do Castelo a Caminha.

A intervenção é assim descrita nos relatórios do responsável pelos trabalhos e gerente da empresa que os realizou.

 

‘’O Castro do Vieito é uma jazida arqueológica situada na margem direita do estuário do Rio Lima (freguesia de Perre, concelho de Viana do Castelo) (Figura 1), atravessada em cerca de 2/3 da sua extensão pelo corredor da construção da Auto-estradaA28/IC1 (Viana do Castelo - Caminha). A área afectada pelo empreendimento foi alvo de uma intervenção arqueológica de emergência, entre Junho 2004 e Julho 2005, porparte da empresa AMS - Análise e Consultadoria Arqueológica Ld.ª, sendo a direcçãotécnica dos trabalhos da responsabilidade do signatário.

A amplitude da área intervencionada (cerca de 15.000m 2 correspondendo aprox. a um volume de terra movimentado de 12.000m 3 (Figura 2), bem como a elevada quantidade de arqueofactos recolhidos (cerca de 14 toneladas de cerâmica, mais de 1000artefactos líticos, etc., justificou o enquadramento do estudo monográfico dos resultados desta intervenção num quadro académico, sendo objecto de uma tese de doutoramento em Arqueologia, defendida em 2009 na Faculdade de Letras daUniversidade de Coimbra. Este projecto de investigação, que se prolongou durante três anos, foi integralmente financiado pela empresa AMS - Análise e Consultadoria Arqueologia, Lda.’’

 

Uma vez mais, os arqueólogos acompanham uma obra, realizando trabalhos alegadamente de emergência, enquanto o coro da indignação cresce até cair no conformismo e baixar o braços.

Ficamos a saber que o património cultural e arqueológico foi enriquecido com catorze toneladas de cerâmica e mais de mil artefactos, em troca do enterramento por baixo do asfalto de dois terços da área do ‘’castro’’. A diligência deu ainda suporte a uma tese de doutoramento.

Se alguém fizer perguntas incómodas, como a de saber onde param catorze toneladas de cerâmica e mais de mil artefactos, terá com toda a certeza dissabores. Sabe-se que foi prometido um museu para alojar os espólios recolhidos no Castro do Vieito, todavia a promessa nunca se cumpriu.

 

Este é um caso singular na arqueologia portuguesa? De modo algum. Escolhemos este episódio por ser particularmente óbvio e porque os responsáveis pela intervenção, por ingenuidade ou por boa fé, porventura, deixaram a descoberto todos os rastos que nos permitem uma avaliação em profundidade. De resto, os próprios meios mobilizados para intervir numa área de 15.000 metros quadrados e movimentar 12.000 metros cúbicos de terra num ano estão bem patentes nas imagens que os promotores da intervenção entenderam divulgar. Não diremos que são inéditos na arqueologia portuguesa, diríamos que foram neste caso divulgados.

 

É oportuno que se realce que as ruínas do Castro de Vieto se encontravam, antes da intervenção de emergência, visíveis, podendo, se houvesse vontade, constituir um local de atracção turística, tópico que inunda hipocritamente o discurso dos promotores do património cultural há décadas. Permitiriam, de resto, um plano de trabalhos coerente, que mobilizaria a arqueologia durante duas ou três décadas. Agora ficaram sepultadas debaixo da auto-estrada. Os turistas podem sempre sonhar que circulam por cima do Castro de Vieto. Do castro de Vieito restam catorze toneladas de cerâmica, mais de mil artefactos arqueológicos e uma tese de doutoramento.

 

Vamos deixar aqui mais uma pergunta, para contextualizar o leitor relativamente às nossas preocupações.

 

Como será possível proceder ao registo topográfico ou crono-estratigráfico de catorze toneladas de cacos e mais de mil artefactos, durante um ano?

 

Desde há anos que se tornou mais do que visível, embora sempre silenciado, o mal estar entre os arqueólogos, aparentemente todos reunidos numa Associação Profissional que cumpre o papel de ordem profissional. Os arqueólogos de campo manifestam a sua indignação contra os empresários de arqueologia expondo, por vezes de forma rocambolesca, as condições de trabalho a que são sujeitos. Há que notar, todavia, que os empresários são, por norma, também arqueólogos, com capacidade para controlarem não apenas a informação mas todo o discurso disciplinar, omitindo, de forma rigorosa e drástica, as condições em que se exerce a actividade arqueológica.

 

No essencial, a arqueologia portuguesa decorre há cerca de duas décadas neste panorama, no quadro de um modelo empresarial que recorre aos trabalhos de emergência como forma de sobrevivência ou modelo de sustentabilidade. Na verdade, nenhuma intervenção de emergência era emergente, o património sobre que intervém não estava em perigo. Foi colocado em perigo pelas intervenções destrutivas de que resultou a intervenção de emergência.

 

Ora, é este o quadro, bem como a necessidade de o silenciar, em que tem que ser entendido o silêncio em que mergulhou a famigerada ‘’colecção egípcia’’ do BPN, após todo o histerismo que eclodiu quando se alegou que era ‘’falsa’’.

 

Através das próximas três intervenções o leitor vai compreender porquê.

 

Uma coisa é certa. O levantamento de materiais arqueológicos multiplicou-se alucinadamente em Portugal durante as últimas décadas, em intervenções arqueológicas sob a alçada das empresas de arqueologia, no âmbito de relações contratuais privadas, sobre as quais recai a alegação de confidencialidade. Os materiais recolhidos são predominantemente milhares de metros cúbicos de terra, toneladas de cerâmica e milhares de artefactos triviais, a que devemos juntar algum material osteológico avulso.

 

 

 

 

(fotos retiradas daqui)


(Continua...)

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