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Como prometera, torno hoje público, integralmente, o parecer emitido pela ‘’designada’’ Comissão de Peritagem encarregue de decidir se a colecção de objectos arqueológicos vendidos por Joaquim Pessoa ao BPN/GESLUSA eram falsas ou autênticas.

 

O parecer em causa é, do meu ponto de vista, uma irreparável humilhação para a arqueologia portuguesa e a Associação dos Profissionais Arqueólogos, a Associação dos Arqueólogos Portugueses e cada arqueólogo por si teria, se a arqueologia não fosse em Portugal uma tenebrosa corporação de gente boçal e grosseira, o dever de se demarcar e de denunciar este parecer.

 

 

Eu vou proceder em breve à desmontagem crítica do documento, mas adianto para já os seguintes comentários sobre as circunstâncias em que ele foi congeminado.

 

A primeira consideração que se me impõe fazer é a de que o parecer é introduzido pela seguinte descrição das circunstâncias em que foi emitido:

‘’A comissão de peritagem constituída pelos abaixo assinados Mário Varela Gomes, Virgílio Hipólito Correia e Rodrigo Banha da Silva, reuniu às 10 horas do dia 5 de Janeiro de 2010, nas instalações do Banco Português de Negócios – Edifício Sede, tendo em vista fazer a apreciação da colecção constituída por 170 peças, em diversos materiais e consideradas de proveniência e/ou interesse arqueológico, guardadas naquelas instalações e pertença da GESLUSA.’’

 

Porque razão a Comissão de Peritagem se reuniu nas instalações do Banco Português de Negócios? Porque razão a Comissão de Peritagem fez questão de clarificar que as 170 peças que se guardavam naquelas instalações eram pertença da GESLUSA?

A Comissão de Peritagem tem a cautela de não dizer explicitamente que observou presencialmente as peças, diz apenas que as peças estavam guardadas nas instalações da sede do BPN, embora não esclareça por que razão, uma vez que teve a ‘’fineza’’ de esclarecer que, embora se guardassem na sede do BPN, pertenciam à GESLUSA. Em qualquer circunstância em que seja confrontada com o facto de nunca ter observado presencialmente as peças, uma vez que elas não se encontravam aí guardadas, a Comissão de Peritagem alegará que nunca afirmou ter observado presencialmente as peças, mas tão só umas fotos a que se refere.

A mim não me restam dúvidas de que esta introdução foi escrita pelos investigadores da Polícia Judiciária que promoveram e acompanharam a diligência, com o propósito de iludir o leitor e fazer crer que o parecer foi elaborado em presença das peças, mas deixando em aberto a hipótese de o não ter sido.

Tanto os investigadores da Polícia Judiciária como os arqueólogos nomeados para congeminar o parecer estavam, como já aleguei, convictos de que eu jamais teria acesso ao processo ou me interessaria por ele. Foi por isso que ficaram tão seraficamente pacificados, pois, se tivessem imaginado que eu o leria, não esperariam com toda a certeza que eu fosse parvo e sabiam que eu iria interrogar não apenas a letra mas a circunstância.

 

A segunda consideração é bem mais drástica para os arqueólogos, para a sua rasteira e grosseira cultura e para o modo como no seio da corporação se continuam a cultivar personalidades grosseiras, arrogantes, apenas pela simples razão de que detêm nas mãos os cordéis que fazem, na cena do teatro da comédia, mexer as marionetes.

Dizem os ‘’catedráticos’’ em certo passo: ‘’O tinteiro é uma reprodução de museu, em liga pobre, de provável peça romana de bronze (…)’’ e ‘’Diadema e coroa apresentam a mesma patina artificial das peças do grupo B.1 (…)’’.

Como apuraram os senhores ‘’catedráticos’’ o teor da liga do ‘’tinteiro’’? E como identificaram a patina artificial de dois artefactos em ouro?

Estes objectos, ou ‘’peças’’, foram sujeitos a estudos aprofundados, devidamente documentados, antes de terem sido apresentados. E os senhores ‘’catedráticos’’ apuram o teor de uma liga de bronze através de fotografia ou de uma alegada observação que se ocupou de cento e setenta ‘’peças’’ numas escassas horas?

Vou proceder à análise exaustiva deste parecer, palavra por palavra.

Mas sobretudo interessam-me as circunstâncias em que foi emitido para identificar a fraude.

E deixo um recado aos investigadores da Polícia Judiciária. Há muito que vos deveria ter chamado a atenção para que os vossos procedimentos e diligências não são apenas fraudulentas. São criminosas. Mas do facto de ter adiado só me posso acusar a mim próprio.

 

Ler aqui o parecer

 

 

As verdadeiras fotos da colecção Joaquim Pessoa/BPN/GESLUSA.


 

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2 comentários

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De tron a 14.08.2014 às 05:16

Tudo anda podre nesta república
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De M a 27.08.2014 às 15:44

Há pessoas que vale a pena clonar e não é nenhum desses. Pessoas como o autor do blogue para varrer de uma vez por todas a escumalha deste país. Deixo o seguinte texto que alguém teve a gentileza de partilhar. 

"Por aí,de um senhor Linhares: 

"Sou um velho professor de história, interessado pela arte de uma forma geral e pela arqueologia de uma forma particular. No âmbito destas minhas paixões tive o prazer de conhecer, circunstancialmente, o Manuel Maria de Castro Nunes. Cedo encontrámos caminhos comuns, percursos paralelos, idênticas ânsias e sonhos compartilhados.
Vou ser breve. Acompanhei, jugo que quase desde o principio, a sua participação na orientação, classificação e valorização de uma rara colecção de objectos arqueológicos recolhidos por um individuo de invulgar valor, perseverança, sabedoria e “feeling” de seu nome João Lourenço Estrada. Acompanhei, de perto, os sucessos de tão estreita ligação. Desde o princípio que o Manuel Maria demonstrava um interesse inusitado, na sua já longa vida de estudioso, na relação com o projecto do Sr. Estrada. Foram dias, foram noites, foram horas roubadas ao descanso, eu fui testemunha, dispensados na recolha, estudo e preservação da maior colecção de arqueologia na posse de um português, quiçá de um cidadão do mundo.
Julgo que lhe veio a competir, posteriormente, a preparação de um espaço condigno, onde um sem número de obras de arte seriam arrumadas e expostas com critérios rigorosos de classificação museológica. A nada se furtou! Incansável, mais uma vez fui testemunha, do tempo que roubou à companheira em fase terminal de doença cancerígena… Enfim.
Algo entretanto se passou. A Fundação da Amnésia, no seu mais elementar direito de gestão, organizou o seu projecto como melhor o entendeu.
Chegam-me à mão hoje dois catálogos de exposições preparatórias do que há-de ser o futuro museu. Conhecedor do volume e extensão da colecção, fogem à minha compreensão os critérios da selecção de peças para os catálogos. Concerteza que existem, espero que não sejam aqueles que eu temo. Gente nova chegada ao projecto a seu tempo, pouco ou nada preparada, pode vir a ter desígnios tenebrosos para algo que se queria exemplar, único e de dimensão inquestionável.
Por fim choca-me a “amnésia” da Fundação e dos seus responsáveis. Nem uma pequena, que seja, referência a Manuel Maria Castro Nunes, mau grado usarem, sem rebuço, toda a informação existente e por ele recolhida. Questionei-o, de imediato. Pareceu-me muito triste a sua resposta de que o assunto não tinha importância, fazendo, sempre, questão de ilibar o Sr. João Estrada.
Estão a tempo de corrigir tanta ingratidão. Façam-no e quanto antes, não vá o signatário alimentar com mais algumas informações o desvio e transvio de um projecto eivado de embustes e incorrecções."

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