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Retomando então a última nota aqui deixada e interrogando a questão de saber o que é um arqueólogo e o que é um arqueómano, desvio-me ligeira e brevemente da linha que trazia para abordar uma questão mais específica e mais restrita.

No dia vinte e quatro de Fevereiro de 2014, no Museu Nacional de Arqueologia, Ana Isabel Palma Santos apresentará com a Doutora Luísa Carvalho o livro de Maria Filomena Guerra e de Isabel Tissot ‘’Ourivesaria Pré Histórica do Ocidente Peninsular Atlântico. Compreender para preservar".

Já tive ocasião de notar que a imagem que acompanha a divulgação do evento é inesperada. Sendo mais do que óbvios os critérios que, do ponto de vista dos procedimentos técnicos, para lá dos ‘’estéticos’’ e ornamentais, distingue sem ambiguidades a ourivesaria de tradição primitiva, pré histórica em acepção estrita, da tradição que se virá depois a consagrar durante a Idade do Ferro, mas que radicava já na Idade do Bronze, é notável que tenham seleccionado para ilustrar o tema do livro uma ‘’joia’’ tão desfasada, tão ilustrativa da tradição ibero-fenícia dos fins do Século IV ou início do Século III.

 

Acompanho, como estudioso arqueómano, a carreira e a actividade de Maria Filomena Guerra desde há muitos anos. A sua intervenção na revisão do estudo da ourivesaria peninsular, nomeadamente do universo primitivo da tradição atlântica, era algo que se aguardava com expectativa, porque, de resto, tratava-se de dar continuidade aos trabalhos de Barbara Armbruster.

Na verdade, já há muito que tenho na minha secretária, à espera de conclusão, um estudo de desenvolvimento do trabalho de Filomena Guerra sobre a ourivesaria etrusca, nomeadamente sobre a colecção Campana, que é sem dúvida um precioso repertório de metodologia de análise arqueométrica. Embora o que mais me tenha interessado sejam os objectivos do trabalho e o seu objecto, a arqueometria dedicada à identificação do autêntico e do falso, ou do ‘’pastiche’’, para usar a nomenclatura de Filomena Guerra.

 

Um tema, de resto, ultimamente invadindo por acesas polémicas, no contexto de saber se deve ou não ser um dos âmbitos ou objectos da arqueometria, o de distinguir entre o autêntico e o falso, dado que, de acordo com certos pressupostos fundamentalistas, estaria sempre fora do âmbito da arqueometria o objecto ou artefacto que pudesse ser alvo de suspeição, uma vez que seria pressuposto que tais objectos ou artefactos não são arqueológicos. (1)

 

Tem sido sobre esta deambulante ambiguidade que me tenho manifestado. Por nunca se conseguir entender em que contexto um objecto ou artefacto não arqueológico se torna arqueológico.

É o caso do livro agora apresentado.

 

De facto, de acordo com os pressupostos fundamentalistas que ora se alegam ora deixam de se alegar e se dispensam, o livro de Filomena Guerra agora apresentado seria uma conjectura, se existisse ourivesaria Pré Histórica no Ocidente Peninsular Atlântico, porque, como veremos, a ourivesaria pré histórica no Ocidente Peninsular Atlântico não dispõe de matéria estritamente arqueológica que a confirme.

Tudo aquilo de que dispomos são supostos achados, transmitidos e narrados por supostos achadores, que conseguiram realizar o feito de convencer prestigiados arqueólogos a comprarem ‘’joias’’ ou ‘’tesouros’’ para museus, nomeadamente o Museu Nacional de Arqueologia.

 

Mas é deveras curioso que este livro de Maria Filomena Guerra seja apresentado por Ana Isabel da Palma Santos, correntemente citada como autora de um parecer sobre a ‘’colecção egípcia’’ do BPN sintetizado em várias declarações de Luís Raposo, mas que aguarda publicação na íntegra, nem que seja para ficarmos a conhecer a metodologia de observação e análise a que recorreu a técnica do Museu Nacional de Arqueologia.

Quem não é arqueólogo mas sim arqueómano sou eu.

 

Bem, mas o que não posso deixar de reportar é que, em 2008, num contexto de sociabilidade específico mas que não vem ao caso reportar, coloquei à disposição de Maria Filomena Guerra, através da Doutora Luísa Carvalho, a colecção de ourivesaria pré histórica da Fundação Ernesto Lourenço Estrada para integrar no seu estudo. Entreguei em mão à Doutora Luísa Carvalho, o inventário, as imagens e os estudos preliminares.

Não sei o que terá entretanto ocorrido. Nem vou sobre o assunto especular.

 

O certo é que, como já notei, os tesouros interessam muito aos arqueólogos, que têm a liberdade para eleger os seus tesouros.

Vão por aí circulando tesouros e estudos sobre tesouros. O tesouro de Baleizão, a colecção Álvaro Barreto, a colecção Francisco Barros e Sá, a colecção do Museu Nacional de Arte Antiga.

Poderíamos agora discorrer sobre o tesouro da Herdade do Álamo, ou o da Herdade de Água Branca, sobre a bracelete de Aljustrel, sobre a lúnula de Cabeceiras de Basto. Mas citamos o exemplo das arrecadas de Ermegeira.

‘’Museu:

Museu Nacional de Arqueologia

N.º de Inventário:

Au 410

Supercategoria:

Arqueologia

Categoria:

Ourivesaria

Denominação:

Brinco

Grupo Cultural:

Calcolítico da Estremadura

Datação:

Calcolitico

Matéria:

Ouro

Técnica:

Ouro laminado por martelagem

Dimensões (cm):

altura: 5,3; largura: 3,4;

Descrição:

Pendente laminar de forma ovalada, prolongada na parte superior, a meio, por uma haste dobrada sobre o reverso, formando gancho para suspensão. É orlado por duas linhas paralelas de pontilhado a punção, feitas a partir do reverso da peça, interrompidas na zona mais estreita, de onde parte a haste para suspensão. Apresenta-se ligeiramente amolgado e com algumas lacunas nos bordos. (Segundo ficha de Catálogo de Ourivesaria do MNA).

Incorporação:

Compra - A Lopes da Silva (dir. M. Heleno)

Proveniência: Quinta de Entrecampos

 

 Foto:  ''Arrecada de Ermegeira''

 

Origem / Historial:

*Forma de Protecção: classificação; Nível de Classificação: interesse nacional; Motivo: Necessidade de acautelamento de especiais medidas sobre o património cultural móvel de particular relevância para a Nação, designadamente os bens ou conjuntos de bens sobre os quais devam recair severas restrições de circulação no território nacional e internacional, nos termos da lei nº 107/2001, de 8 de Setembro e da respectiva legislação de desenvolvimento, devido ao facto da sua exemplaridade única, raridade, valor testemunhal de cultura ou civilização, relevância patrimonial e qualidade artística no contexto de uma época e estado de conservação que torne imprescindível a sua permanência em condições ambientais e de segurança específicas e adequadas; Legislação aplicável: Lei nº 107/2001, de 8 de Setembro; Acto Legislativo: Decreto; nº 19/2006; 18/07/2006* A gruta artificial da Ermegeira, usada como necrópole durante o Calcolítico, foi descoberta casualmente em 1939, tendo sido escavada e publicada por M. Heleno. A violação de que o sepulcro foi alvo não permitiu ao arqueólogo mais do que recuperar algum espólio. Este par de pendentes, juntamente com as contas tubulares [Au 412-416] (existiam mais quatro, entretanto desaparecidas), assim como o restante espólio lítico, ósseo, cerâmico e metálico, parecem apontar para várias inumações de indivíduos socialmente prestigiados.’’

 

O que queremos sugerir é muito simples, sintético e límpido como água.

Os arqueólogos, ainda que os estimem e selectivamente os musealizem, não encontram tesouros. Os tesouros sempre foram ‘’encontrados’’ por ‘’achadores’’.

 

O mínimo que os arqueólogos já deviam ter feito, a bem da sua reputação, seria submeter a uma análise rigorosa a ‘’colecção egípcia’’, para que pudéssemos ficar todos pacificados com a nossa consciência. Uma análise tão rigorosa como aquela que Maria Filomena Guerra fez da colecção Campana.

 

E é sem dúvida curioso que a mais prestigiada empresa de arqueologia de Portugal continue a trabalhar, por encargo da EDIA, na região de Baleizão. E não veja rastos a um tesouro. Na região de Baleizão e de Castro Verde.

 

 

Foto: Colecção Fundação Ernesto Lourenço Estrada.

 

1.‘’Etruscan gold jewellery pastiches of the Campana’s collection revealed by scientific analysis.’’, DE RE METALLICA (…), Roma, 2003. 

 

Nota breve.

O que seria de facto interessante seria que M F Guerra identificasse os procedimentos técnicos utilizados na ''produção'' dos ídolos oculados do tipo Marvão, nomeadamente a proveniência da matéria prima, determinando se houve prévia copelação para produção da lâmina, ou mera aglutinação em forja. O que nos permitiria deduzir algo acerca da persistência das metodologias oficinais primitivas.


Relacionado: 
. A colecção "egípcia" do BPN. Algo que eu preferia nunca ter escrito

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6 comentários

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De Atento a 22.02.2014 às 10:50

Em 23/09/2013 já o MCN fizera um  comentário que transcrevo e que qualquer leitor interessado entenderia o que estava em causa. Este post e o anterior são o desenvolvimento daquilo que já suspeitava. Impressiona-me como é que nunca investigam estas coisas, não haja fiscalização apertada e este governo que anda por aí a lançar sorteios para combater branqueamento de capitais ou terrorismo não tente sequer entrar nesta área onde é óbvio o enriquecimento ilícito à custa de achados em território nacional. Um bem haja MCN!

Em Portugal existem setecentas empresas de arqueologia, operando em vários domínios da actividade e com vários modelos orgânicos, desde empresas em nome individual a uma SA.
Se investigarmos quantos trabalhos, nomeadamente escavações ou actividades similares, como acompanhamentos de obras, decorrem hoje, ou decorriam ontem, ou há um mês, não decorrerão em simultâneo mais de 200 trabalhos.
Isto parece significar que haveria quinhentas empresas imobilizadas.
Ora, isso não corresponde à realidade.
Talvez fosse interessante saber quantas ‘’empreitadas’’ decorrem tituladas pela ERA SA. O que acontece é que existe um grande número, talvez 80% de empresas que na prática se limitam a fornecer às grandes empresas pessoal contratado por salários abaixo do salário mínimo, ou em regime precário com contratos à jorna.
São, na prática, empresas de trabalho temporário, como as que fornecem telefonistas aos ‘’call center’’ da PT.
Em regime de trabalho precário e em risco de criarem ‘’mau nome na praça’’, os assalariados arqueólogos têm receio de falar sobre o assunto.
Mas a verdade que todos tentam esconder é que encontram facilmente meios de reforçarem os seus rendimentos.
A realidade é esta. Nua e cruamente. O actual modelo empresarial da arqueologia só subsiste na condição de haver património em risco.
Muitos são os riscos que podemos presumir para o património.Este é um dos factores que concorre para que os arqueólogos tenham que alegar que a ‘’colecção egípcia’’ do BPN é ‘’falsa’’.


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De Fatima Santos a 23.02.2014 às 10:44

Esta página tem de ser divulgada ao máximo!
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De QC a 06.03.2014 às 17:27

Se as peças são egipcias, porque é que ninguém se lembrou de as mostrar a um arqueólogo egipcio que conhecerá muito melhor a história do seu pais. Portugal nem tem escavações nesse país. Esta é de facto uma história muito mal contada que como tudo em Portugal não dá prisão para ninguém.
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De Manuel Maria Guimarães de Castro Nunes a 07.03.2014 às 12:32

Caro QC.


Ou surgiu aqui absolutamente descontextualizado, ou fica registado o seu propósito.
É já mais do que óbvio que as peças não são egípcias.
Se fossem, todavia, não é também inequivocamente dedutível que tivessem que ou devessem ter sido mostradas a um arqueólogo egípcio.
Mas, uma vez que o seu propósito é prender alguém, devo dizer-lhe que quem devia ter sido preso seriam aqueles que, sem nunca terem visto e podido observar com critério as peças, aceitaram, sem reservas que eram egípcias ou deduziram, sem qualquer fundamento, que eram falsas.
Esses, de facto, foram cúmplices no ''desaparecimento'' da colecção para precaverem a hipótese de um dia poderem ser confrontados com a sua precipitação e com as suas intenções.
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De J. Costa a 07.03.2014 às 19:00

Com sua licença, Manuel de Castro Nunes, vou também responder ao QC por achar pertinente. Bastaria ter acompanhado desde o príncipio o caso do tesouro BPN para saber que se a história está mal contada, é porque o CORREIO DA MANHÃ e os seus jornalistas tacanhos Azenhas e Lícinios, a contaram mal. E os pobres de espírito engolem a história. Outros menos pobres de espírito, digamos, com espírito sacana fingem engolir. São os que se limitam a ler o que lhes interessa. Para depois atirar com umas provocações para o ar. No fundo, bem no fundo, o assunto talvez os incomode. Talvez não queiram que os tesourinhos apareçam, sabe-se lá. É que,só pode ser miserável quem não quer ver ou finge que não vê que desde o início deste tema, a palavra EGÍPCIA, está entre aspas. A S P A S. 

E o leitor pode até pesquisar o seu CORREIO DA MANHÃ habitual e ler o que diz o seu jornalista tacanho. citando-o: "a colecção egípcia, que afinal não era egípcia".

Afinal até os jornais dizem que não havia egípcia nenhuma.  

Desculpe a intromissão, mas um empurrãozinho faz bem a toda a gente. 
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De Manuel Maria Guimarães de Castro Nunes a 07.03.2014 às 19:32

É óbvio que o propósito do comentário de QC ficou em síntese no último período.

‘’Esta é de facto uma história muito mal contada que como tudo em Portugal não dá prisão para ninguém.’’

O que QC queria de facto transmitir era que a colecção ‘’egípcia’’ bem pode sumir-se, o que interessaria era que alguém fosse preso.

A primeira parte do comentário serve apenas para introduzir este propósito.

Há uma história mal contada, portanto alguém deve ir preso. Porque ninguém mostrou as peças a um arqueólogo egípcio. Toda a gente com uma cultura média sabe que a maioria dos grandes arqueólogos consagrados como especialistas na arte e na arqueologia egípcias são franceses, alemães, ingleses e americanos. Basta para tal ter visto o Indiana Jones.

Será que QC está entre aqueles que deveria ir preso, porque, com alguma finalidade obscura, continua a querer tentar passar a mensagem de que as peças são ou eram egípcias? Parece-me ser o caso.

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