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Equally interesting is the precise knowledge of the site, allowing us to carry out essential excavations witch will complement and enrich the information we already have. The deposit thus have a very precise context, not only in itself but especially because its place has meaning in spatial terms. And the fact that it comes from the region in Portugal with one of the highest concentrations of gold objects from the 1st Millennium BC adds to its significance.

Vilaça, Raquel e Lopes, Maria da Conceição, ‘’The treasure of Baleizão, Beja (Alentejo, Portugal)’’, in Journal of Iberian Archaeology, Volume 7, Porto, 2005.

 

Quando li pela primeira vez esta breve notícia em forma, em contexto científico propriamente dito, que deve considerar-se a notícia ‘’princeps’’, porque as demais que corriam eram jornalísticas, a maior parte das vezes contraditórias e ambíguas, o trecho que reproduzo foi aquele que resolvi tomar como ponta para desatar a meada.
Porque razão Conceição Lopes e Raquel Vilaça assumiam assim peremptoriamente que a região de onde provinha o achado coincidia com uma das mais elevadas concentrações de objectos em ouro do primeiro Milénio antes de Cristo? O que conheciam Conceição Lopes e Raquel Vilaça que era desconhecido na tradição do conhecimento estatuído da investigação arqueológica?


Foi então que reli a notícia para procurar referência circunstanciada e detalhada ao lugar do achado, para superar a referência genérica ‘’vizinhança de Baleizão’’. Não havia. Por isso, ainda hoje se especula acerca da rigorosa referência ao lugar, que Conceição Lopes designa como Cerro Furado e António Lamas como Herdade da Comenda.
O achado era também referenciado como tendo aparecido dentro de um vaso cerâmico. Não havia também todavia um único fragmento que o atestasse, uma breve referência tipológica que permitisse relacioná-lo com os objectos, um desenho aproximado, um mais ou menos que fosse.
A partir de então restava interrogar as razões que tornavam conveniente ou imperativa a publicação desta notícia, que pouco mais propunha do que transferir, por defeito, o que corria no ambiente mediático para o contexto do que se convencionara designar como divulgação científica.
Do ponto de vista da divulgação científica ficáramos por aqui, por esta sumária notícia que se limitava a descrever com mais algum detalhe, talvez, os artefactos, propondo um sumário enquadramento cronológico e tipológico.
As questões fundamentais que a divulgação mediática já sugeria consolidavam-se. No essencial poderiam ser sintetizadas num sintético ‘’O que é isto?’’.

O que era aquilo, então?

É sabido, nos sinuosos e conjurados meios da arqueologia, que eu tive, nos últimos três anos, um diferendo agudo com Conceição Lopes.
Não conheço pessoalmente Conceição Lopes. Ela teve talvez a infelicidade de se envolver num antigo diferendo entre o meu pai e a Câmara Municipal de Arganil, a propósito do destino a dar aos espólios recolhidos por meu pai durante cerca de cinquenta anos de actividade arqueológica no centro do país e ao campo arqueológico da Lomba do Canho, Arganil.

É fácil também sintetizar este episódio. No seguimento de uma interminável sequência de episódios inqualificáveis, o Presidente da Câmara Municipal de Arganil anunciou, no vestíbulo das últimas eleições autárquicas, 2013, que assinara com a Universidade de Coimbra, através de um Vice Reitor e da arqueóloga Conceição Lopes, um protocolo que visava a instalação museológica dos materiais recolhidos por meu pai e o reinício dos trabalhos no campo arqueológico da Lomba do Canho, polarizado em torno de dois monumentos, o dólmen do Moinho de Vento e o acampamento romano de Arganil, em cuja escavação e investigação o meu pai investira cinquenta anos da sua vida e envolvera os seus discípulos e a instituição académica que sempre o acompanhara, a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Após multiplicadas diligências, veio a saber-se que o protocolo em referência tinha um teor genérico e em lugar algum nomeava o Museu Regional de Arganil e os seus espólios ou a Lomba do Canho. Restava pois saber porque razão a Câmara Municipal, através do seu Presidente, divulgara a assinatura do protocolo e o seu teor daquela forma e com aquele conteúdo e porque razão Conceição Lopes e a Universidade de Coimbra nada disseram ou fizeram para esclarecer o assunto e o seu propósito.


O meu pai tem noventa e cinco anos, encontra-se capaz de intervir com todas as competências no destino a dar aos objectos e resultados das suas investigações, sente-se vinculado a compromissos deontológicos com os seus discípulos e devia ser obviamente consultado acerca da questão, quer a lei e os procedimentos administrativos o impusessem ou não. Não são meramente questões legais, são fundamentalmente deontológicas.
Ora bem. O facto de o episódio rocambolesco do achado e recolha pública do tesouro de Baleizão me suscitar uma profunda reflexão nada tem que ver com o que me opõe a Conceição Lopes relativamente a Arganil, que é um episódio que irrompe em 2013. As minhas primeiras reflexões acerca do tesouro de Baleizão remontam a 2006, após ler a notícia em epígrafe. Evitei precipitar-me referenciado às notícias mediáticas.

Faço mais uma pausa reflexiva preliminar antes de passar à análise circunstanciada do episódio.

O ambiente da Arqueologia em Portugal foi sempre um ambiente mesquinho, de mau carácter velhaco, conjurado, encolhido em torno de uma acanhada rede de cerimónias e liturgias de culto de soluções administrativas e de afirmação de uma teia de hierarquias inóspitas. Oportunista nos seus tópicos e nas suas cruzadas. As recentes subversões do paradigma livremente escolhido pelos arqueólogos para enquadrarem, de forma alegadamente sustentável, a sua actividade são demasiado elucidativas. Mas sobretudo demasiado elucidativas da perda de respeito pela própria imagem pública da disciplina e da investigação arqueológica, vergada, sem apelo, aos interesses imediatos dos lobbies e associação de interesses.
Não vou para já perder-me mais com este tema, porque, no desenvolvimento da reflexão acerca deste episódio irromperão exemplos circunstanciados que bastem.
Resta-me todavia referir que, do meu ponto de vista, Conceição Lopes me parece vítima de uma cilada, de uma ambiguidade sistémica e da plataforma de hipocrisias em que sempre exerceu a sua actividade. Não é, de forma alguma, Conceição Lopes que está em causa, é toda a arqueologia, como forma de vida.

Ora, o que era então aquilo?


Vou iniciar a resposta a esta interrogação com uma proposição enfabulada, um tanto jocosa, novelística, caricatural.
Imaginemos um arqueólogo investigador numa universidade que recebe uma chamada deste teor, da parte de alguém que conhece de mais longa ou mais breve partilha social ou profissional, ou que não conhece mesmo.
O sujeito que o interpela identifica-se como intermediário, representante ou amigo de outro sujeito que, como hobby, corre os campos com um detector de metais em busca de artefactos arqueológicos, que regularmente arrecada ou vende como forma subsidiária de sustento. Anuncia que o seu amigo fez uma descoberta fabulosa de artefactos, alguns de ourivesaria. E pretende que o arqueólogo se desloque ao local para observar o ‘’tesouro’’ e encontrar comprador que o encaminhe para um destino compatível com o seu estatuto de bem patrimonial público. Ressalva todavia que o mercado de antiguidades está no rasto do ‘’tesouro’’ e já fez propostas difíceis de recusar.
O dever do arqueólogo é, do meu ponto de vista e sem qualquer dúvida, responder ao apelo e ir ver o achado. Se o não fizer será, no mínimo, grosseiro na sua petulância e umbilicalmente responsável em cumplicidade com o seu destino e paradeiro.
Mas não tem que nem deve ser ingénuo. A maioria dos arqueólogos conhece o perfil e o ambiente em que exerce a sua actividade um pesquisador de achados arqueológicos. Conhece no essencial o universo dos problemas sociais e culturais que a actividade envolve. A arqueologia portuguesa e genericamente a arqueologia nasceu e cresceu no contencioso ou no convénio com essas práticas. Recordemos a relação de arqueólogos como Leite de Vasconcelos com pesquisadores como António Maçãs. Se formos isentos reconheceremos que os pesquisadores alcançaram, pelo menos até um dado ciclo da arqueologia, mais longe do que a arqueologia. No que à tipologia dos artefactos que transformaram o achado de Baleizão num ‘’tesouro’’, a ourivesaria, este postulado é inquestionável.
Um arqueólogo isento sabe também que o registo feito por um pesquisador dos seus achados é determinado por critérios e imperativos que devem merecer ao arqueólogo uma inamovível reserva metodológica. Tal diz respeito, no essencial, à associação dos achados entre si e às condições e localização do achado.

Ora, tal como surgiu em contexto de comunicação mediática, o tesouro de Baleizão era um tesouro, um conjunto de artefactos contextualmente associável de acordo com os critérios disciplinares intrínsecos à arqueologia, porque aparecera indissociavelmente num contexto, um vaso cerâmico e um lugar. O conjunto, por mais questões que nos coloque do ponto de vista da sua unidade, cronológica, funcional e cultural, aparecera reunido num vaso e num lugar. Mesmo que uma análise rigorosa viesse a questionar a coevidade do conjunto, ele aparecera reunido dentro de um vaso cerâmico num dado lugar. Só isso podia sustentar e fundamentar o tópico prévio da apresentação mediática, um ‘’tesouro’’.
Todos sabemos que a palavra ‘’tesouro’’ é ambígua. É corrente uma mãe referenciar os seus filhos como tesouros. Em arqueologia, quer em comunicação mediática quer em comunicação científica e académica, o uso e o recurso ao termo ‘’tesouro’’ tem uma história e, como história ou narrativa histórica, requer uma hermenêutica. A associação do vaso cerâmico, o ‘’pote’’, ao achado de um tesouro tem também uma história que remonta ao ‘’corpus’’ lendário do imaginário popular.
É também do universo lendário que o tesouro subsista para além do pote, que parece um ramalhete narrativo.
Os lugares podem ser também ambíguos. Posso referir a vizinhança de Lisboa, a Rua do Ouro, ou uma carta topográfica rigorosa, com coordenadas. As coordenadas podem integrar o azimute e referir com rigor o estrato na altitude.
Ora, o primeiro problema do tesouro de Baleizão seria este, antes mesmo de equacionar os detalhes legais respeitantes à propriedade ou à maior ou menor legitimidade na relação com o achador ou do achador com o achado.
Vamos pois interrogar até às últimas consequências o estatuto do tesouro de Baleizão.

O que era aquilo?

 

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