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Deixemos por ora o assunto Afonso Camões, que foi apenas o exemplo liminarmente óbvio da corrupção do alegado estatuto de independência dos meios de comunicação social em Portugal, para os que andavam distraídos e não tinham ainda entendido que não há jornalismo independente enquanto os jornalistas deverem fidelidade e zelo aos seus patrões que são os patrões da política.

 

Esta nova história, de hoje, é muito simples. Ela repete-se todos os dias nos corredores da promiscuidade entre as polícias e os políticos, os magistrados, os banqueiros e os órgãos de comunicação social.

 

José Almeida Ribeiro é mais um zeloso e fiel profissional da política. Entrou no SIS em 1989, como analista de informação, dizem, em pleno êxtase triunfal da maioria cavaquista. Em reconhecimento do zelo e fidelidade, foi logo em 1990 destacado pelos seus patrões para acompanhar Mário Pinto, então Ministro da República nos Açores.

Regressado ao SIS, desponta de novo na política como chefe de gabinete de Manuel Maria Carrilho, em 1999. Uma prova, sem dúvida, da ingenuidade de certos políticos, que admitem, inadvertidamente, espiões do SIS nos seus gabinetes. O Silva Carvalho exerce agora o seu zelo na Secretaria Geral do Conselho de Ministros.

 

José Sócrates também não conseguiu resistir ao apelo magnético do espião e nomeou-o depois Secretário de Estado Adjunto, após um longo tirocínio como assessor.

Derrotado Sócrates em 2011, regressou ao SIS, tendo pedido transferência para o recém criado SIED. Para logo em 2012 abandonar a profissão de espião, dedicando-se ao ensino.

Já como professor, introduziu-se na proximidade de António José Seguro, dizem agora, como espião de José Sócrates, reportando diariamente as actividades do ex Secretário Geral do PS ao ex Primeiro Ministro. Espião é espião e, de facto, temos que reconhecer que o SIS, o SIED e no geral os serviços secretos da República foram criados para esse fim e com esse propósito, para combater o terrorismo. Ou seja, para que os partidos, tácitos ou denominados, se possam espiar uns aos outros. De tal forma que todos os espiões do SIS ou do SIED nos parecem hoje exemplos acabados de zelosos e fiéis espiões duplos.

Tudo bem.

 

O que ninguém sabia era que a Polícia Judiciária, o Procurador Rosário Teixeira, o Juiz Carlos Alexandre, o DCIAP, o TCIC e através deles o Jornal i, o SOL, o Correio da Manhã espiavam o SIS e o SIED mobilizando para o efeito as escutas judicialmente autorizadas no âmbito da Operação MARQUÊS.

 

A ideia com que ficamos é a de que quem quiser espiar com todo o detalhe a vida dos políticos e dos partidos, basta conseguir ‘’enfiar’’ um espião no SOL, no Correio, no Jornal i, na TVI, na SIC e esperar que as escutas realizadas pela PJ e pelo Procurador Rosário Teixeira ao SIS e ao SIED cheguem, em malas ou envelopes lacrados, às redacções dos jornais. Parece ser isso que a polícia e os magistrados fazem, esperar que as escutas que realizaram mas tiveram que arquivar em envelopes lacrados por serem irrelevantes no âmbito restrito da matéria da investigação cheguem aos jornais. E então, uma vez publicadas, podem ser reabertas pela investigação.

 

Alegará já o leitor que as conversas privadas entre José Almeida Ribeiro e José Sócrates, mesmo que versem a utilização dos serviços e competências técnicas do ex espião em favor da conspiração política do ex primeiro ministro contra António José Seguro, não caem nem cabem no âmbito das matérias investigadas pela Operação MARQUÊS, pelo que deviam ser destruídas ou, no mínimo, arquivadas. E que, por isso, a sua divulgação não é já apenas mais um caso de divulgação do ‘’segredo de justiça’’ mas uma óbvia utilização criminosa das escutas.

 

É óbvio que as actividades das polícias secretas portuguesas há muito que deviam ter sido alvo de uma sindicância drástica e isenta. Os episódios que indiciam a utilização política criminosa da actividade dos espiões sucedem-se sem que o regime intervenha, difundindo-se a ideia geral de que todos e cada um tem o seu espião e todos esperam vir a beneficiar da vigilância dos serviços secretos do Estado para armadilhar o campo dos adversários.

 

Mas a Operação MARQUÊS começa a espernear. Na medida em que o tempo e a cronologia avança e a acusação tarda, na ausência de dados objectivos e consolidados confinados à matéria criminal restrita alegada para as medidas preventivas, os temas periféricos de cariz político que caíram na rede no âmbito abusivo da investigação e das escutas multiplicam-se. Nenhuma das suspeitas inicialmente alegadas resistiu ao barulho, de modo que os investigadores já se conformaram com os factos. O único crime de que José Sócrates pode ser acusado é o de preparar uma candidatura à Presidência da República e de ter mobilizado os seus espiões para vigiar o seu mais poderoso adversário, António José Seguro.

 

Para dignificar a investigação e salvar a cara dos magistrados só faltava mesmo ficar demonstrado que os investigadores, magistrados e polícias, andam a espiar os serviços secretos e através deles as conjuras políticas dentro do PS, de Sócrates contra Seguro e de Seguro contra Sócrates.

Uma vez mais há que levantar ainda uma velha questão. O Ministério Público estará também a escutar o Presidente da República no âmbito da Operação MARQUÊS? Não andará também alguém a escutar a Operação MARQUÊS?

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