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A comissão de peritagem constituída pelos abaixo assinados Mário Varela Gomes, Virgílio Hipólito Correia e Rodrigo Banha da Silva, reuniu às 10 horas do dia 5 de Janeiro de 2010, nas instalações do Banco Português de Negócios – Edifício Sede, tendo em vista fazer a apreciação da colecção constituída por 170 peças, em diversos materiais e consideradas de proveniência e/ou interesse arqueológico, guardadas naquelas instalações e pertença da GESLUSA.

Para se simplificar a análise e a elaboração do presente relatório, optou-se por agrupar as peças observadas conforme o parecer que se segue:

  1. Peças líticas

A.1. Peças líticas de pequena dimensão

A.1.1. Representações fálicas.

Objectos de dimensões variadas, executados em suportes calcários, mármore branco e rosa, rocha granitoide, xisto e grauvaque.

Utilizam formas naturais ou rudemente afeiçoadas por polimento (Exceptuando um exemplar, totalmente bojardado).

É generalizada a ausência de patina/ desgaste provocada pelas condições deposicionais em jazida, mostrando a maior parte dos exemplares formas que não são comuns nos contextos arqueológicos nacionais e exogéneos.

Alguns exemplares mostram testículos(11), aspecto ausente em artefactos pré e proto-históricos originais.

É de descartar a autenticidade de qualquer dos 21 exemplares observados.

 

A.1.2. Representações femininas.

Trata-se de conjunto heterogéneo em termos de soluções plásticas nuas que, salvo um exemplar, utilizam formas naturais de seixos e pequenos blocos de rochas, sobretudo calcárias, mas também, em oito casos, fósseis.

As figuras mostram em geral seios, mais raramente as nádegas e braços, aproveitando as formas naturais dos suportes.

Nota-se, na maior parte dos exemplares, polimento total e aplicação de matéria cromática, tendo em vista conceder-lhes patina e, portanto, antiguidade.

Este tipo de imagem é completamente desconhecido dos contextos arqueológicos nacionais e mesmo europeus, mostrando as patinas que apresentam serem claramente artificiais, pelo que todo o conjunto ao pode ser atribuído aos tempos pré ou proto-históricos.

A.2.Peças líticas de média dimensão (entre 20-30 cm).

A.2.1. Representações femininas.

Peças que tentam figurar imagens femininas, mostrando o mesmo tipo de suportes (exceptuando um caso, em rocha basáltica), de realização e de desgaste que as imagens mencionadas supra (A.1.2)

Conclui-se, por esta razão, tratar-se igualmente de produções muito recentes.

A.3. Peças líticas de grande formato

A.3.1. Representações femininas.

Conjunto de representações talhadas em rochas calcárias, mostrando todas elas soluções idênticas em termos formais.

Trata-se de blocos com forma vagamente antropomórfica rudemente afeiçoados, onde se representam com variantes, o pescoço, os seios e, em alguns casos, os braços, nádegas e o sexo.

O afeiçoamento mostra, principalmente, cortes rectilineos, definindo volumes rectangulares, o que sugere corte através de meios mecânicos.

As peças foram artificialmente polidas e patinadas, mostrando a aplicação de camada cromática de cor amarela, pretendendo conferir-lhes aspecto antigo.

É interessante notar que em uma ou duas das peças se tentou copiar esculturas de Malta, conhecidas como representações da “Grande Deusa-Mãe” e muito difundidas.

Pelo exposto concluímos tratar-se de produções modernas, sem qualquer interesse histórico-arqueológico.

 

  1. Peças que utilizam metais nobres

B.1. Peças em ouro trabalhado a partir de chapa metálica contínua

 

O conjunto compreende:

- Três “diademas” laminares, decorados por medalhões com mascaras (fotos nº 40-42);

- Quatro grandes máscaras barbadas, formadas a partir de três tiras metálicas (um simples, foto nº 33; dois com uma tira de barba suplementar, fotos nº 26 e 31; um com duas tiras suplementares, foto nº 30);

- Três pequenas máscaras barbadas, formadas a partir de duas tiras metálicas, com elementos de suspensão (fotos nº 36-38);

- Seis máscaras redondas, formadas a partir de três tiras metálicas (fotos nº 27,28,32,34,35 e 39);

- Quatro “lúmulas” formadas por cinco elementos unidos por tirantes rebatidos (fotos 18-20 e 29);

- Quatro “peitorais” compósitos (um formado por uma placa e três pendentes, fotos nº 14 e23; um por seis pendentes dispostos em pirâmide invertida, foto nº 15);

- Seis pendentes com máscaras humanas ou geométricas (quatro cordiformes, fotos nº 1, 4, 10 e 11; 2 naviformes, fotos nº 3 e 5);

-Placa rectangular decorada com face humana (foto nº 6).

Todas as peças acima mencionadas foram produzidas a partir de lâminas de ouro com largura constante (6.5 cm) que, nas de maiores dimensões foram “cerzidas” a outras tiras por forma a obter placas da dimensão pretendida. Esta técnica é desconhecida na ourivesaria antiga (a nível mundial) e desde logo denuncia o conjunto como falso. A largura constante das tiras metálicas deve reportar-se à largura de laminador industrial.

A decoração e a iconografia das peças em apreço combinam referências a elementos artísticos do Bronze Final da Península Ibérica, Próximo-Orientais, da Idade do Ferro Norte-Europeia e até da América Central Pré-Colombiana, sendo o conjunto, no seu todo, aberrante dos pontos de vista estilístico e histórico.

Também só o caracter moderno as peças justifica o estado de conservação impecável de um conjunto destas dimensões que seria improvável num verdadeiro acervo arqueológico, aspectos reforçados pela aparência da patine que cobre as peças, manifestamente artificial.

B.2 Peças de ouro, prata ou compósitas, produzidas a partir de arame.

O conjunto compreende:

-  Dois colares de fio de ouro com espirais e discos (fotos º 17 e 22);

- Dois “torques” de prata, um deles com aplicações de ouro (fotos nº 52-53);

- Um conjunto de colar e dois braceletes, de prata com terminais discoidais em ouro (foto nº51);

- Dois braceletes espiralados de prata (foto nº48);

- Colar torço de prata (foto nº 57);

- Bracelete torço de ouro (foto nº 13).

A inspiração geométrica destas peças encontra-se em joias do Bronze Final (por exemplo na colecção do Museu Nacional de Arqueologia), mas não têm paralelos exactos conhecidos. A técnica nelas usada denuncia o seu carácter moderno, pois os arames utilizados são claramente de produção industrial, sendo de calibre muito homogéneo.

B.3. Peças de ouro, de inspiração helenística-

O conjunto compreende:

- Diadema com figuras e rosetas (foto nº 24);

- Coroa vegetal (foto nº 45);

- Alfinete (foto nº 25).

Este conjunto de peças mostra reprodução cuidada de alguns elementos da ourivesaria greco-helenística, com paralelos na Magna Grécia e na Sicília. No entanto, a técnica de produção não é legítima (como no alfinete ou nas suspensões das rosetas do diadema),a coroa vegetal foi produzida sobre arame idêntico ao das peças do grupo B.2. Diadema e coroa apresentam a mesma patina artificial das peças do grupo B.1. Trata-se, portanto, também de peças modernas.

 

B.4. Peças várias com ouro aplicado.

O conjunto compreende:

- Duas conchas (“simpula”) de bronze, com enrolamentos de chapa de ouro no cabo (foto nº 47);

- Turíbulo com correntes, com aplicação de ouro no gancho e na copa (foto nº 50);

- Bracelete de bronze, com enrolamento de ouro (foto nº 58);

- Dois braceletes articulados, com cabeça de animal e enrolamento de ouro (foto nº 46);

- Taça de pé alto, com aplicações de ouro (foto nº 60);

- “Tinteiro”, em forma de sítula com asas, oferecendo aplicação e enrolamento (foto nº 54);

- Pequeno pendente de vidro, com máscara egiptizante, e pendente de ouro (foto nº 8).

Este conjunto é formado por peças que, no seu estado actual são manifestos artifícios. O simpulum mais pequeno e o bracelete de bronze são talvez peças arqueológicas legítimas, mas o enrolamento de ouro é apócrifo. O tinteiro é uma reprodução de museu, em liga pobre, de provável peça romana de bronze, e é possível que a máscara de vidro seja também reprodução de peça de museu,ou peça inspirada para venda e divulgação. As restantes peças são artesanato de data desconhecida, mas sem valor patrimonial. As aplicações de ouro demonstram ser da mesma autoria das peças do grupo A (em especial a decoração do turíbulo).

B.5. Pequenos objectos de adorno

O conjunto compreende:

- Par de “brincos” de ouro, com contas de vidro (foto nº7)

- Bracelete de ouro com medalhão de prata (foto nº 12)

- Anel de ouro, com “pedra” gravada (foto nº 9)

 

Peças inspiradas em modelos romanos e bizantinos (no caso dos brincos) cuja técnica é manifesta falsificação. O sistema de suspensão dos “brincos” não é funcional; o bracelete e o anel são produzidos a partir de chapa fina batida sobre “alma” de material que não foi possível identificar.

 

  1. Peças várias.

 

Foram considerados como integrando este grupo:

- Cabeça de bronze (foto nº 44); cópia de museu de peça greco-romana; o sistema de colocação é moderno e solidário do original (Museu Britânico?  Louvre? Nápoles? Atenas?);

- Vaso canópico (foto nº62); Cópia de museu ou artesanato egípcio actual.

- Estatuetas de Astartê (fotos nº 112 e 113). Cópias de museu ou artesanato actual (Turquia? Jordânia?)

- Tacinha de prata (foto nº 55), vaso com vidro (foto nº 56), pequeno cálice de pedra e metal (foto nº 59), salva metálica decorada (foto nº 61). Peças de artesanato de diversa natureza, sem valor patrimonial. A tacinha de prata foi tratada com a mesma patina artificial das peças do grupo B.

- Bracelete e anel com pássaro, com turquesas e talvez rubis. Trata-se , com probabilidade, de objectos de ourivesaria moderna produzida na área do Indostão;

- Cavalos de pasta vítrea opaca. Objectos produzidos a partir de massa de vidro reciclado, branco, translúcido e vermelho, provavelmente produzidos no Oriente (Próximo ou China);

- Bracelete em liga de cobre com decoração espiralada. Corresponde, em nosso entender, a peça produzida para o comércio na África Ocidental, designadamente na Costa do Marfim (etnia Baulé). A patina e concreções foram obtidas artificialmente.

Conclui-se, pelos argumentos acima expostos, que as quase duas centenas de peças observadas constituem conjunto sem qualquer valor histórico-arqueológico, correspondendo a cópias de má qualidade de artefactos existentes e, na maior parte, a produções imaginadas sob influência de iconografias antigas.

 

(Mário Varela Gomes*)

 

(Virgílio Hipólito Correia**)

 

(Rodrigo Banha da Silva***)

*Docente de Arqueologia Pré e Proto-Histórica na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da U.N.L. Membro da Academia Portuguesa de História e da Academia Nacional das Belas-Artes.

 

**Mestre em Arqueologia e Director do Museu Monográfico de Conimbriga

 

***Docente de Arqueologia Clássica na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da U.N.L. Mestre em Arqueologia e Arqueólogo da Câmara Municipal de Lisboa.

 

 

 

 

 

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