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‘’Acerca de ‘’Arqueologando’’ e do ‘’património como bem de consumo’’.

 

Impedido, por motivo de convalescença de uma cirurgia breve recente, de estar presente na sessão de 4 de Março, deixo uma breve reflexão.

É notório que o novo paradigma que se vai consolidando na relação dos profissionais do património com o binómio património versus consumo começa a ser, de um ponto de vista talvez tradicionalista, talvez céptico, preocupante.

Adivinha-se um futuro em que o objecto da musealização deixe progressivamente de ser o património e passe a ser o consumidor.

O objecto da musealização transfere-se progressivamente da parede ou da vitrine para a cafetaria ou para a loja de ‘’recordações’’ numa panóplia de réplicas do consumidor, desde o café ou do galão com torrada à caneca estampada, à agenda, ou ao postal.

Do ponto de vista do conhecimento, de resto, mobiliza-se a sociologia do ‘’marketing’’, passando a ser muito mais relevante compreender e caracterizar o consumidor do que descrever ou compreender o património, que se pressupõe compendiado.

É pois nos estratos mais profundos da génese desta nova disciplina que devemos formular a questão: ‘’Sou ou não sou arqueólogo?’’

E saber como ‘’comeremos’’ o património, com o corpo, com a mente ou com o espírito.

Saudações.

Manuel.’’

 

Esta foi a nossa resposta, consecutivamente, durante estes dois ou três anos de ‘’crise’’ e de frenesi na exploração de ‘’oportunidades’’ que desabaram sobre o património indefeso, na frenética diligência de saber quem o deve ‘’comer’’ e quem pode ou deve comer os benefícios da sua ‘’exploração’’, é assim que se entendem os privilégios das corporações profissionais na relação mercantil com os seus supostos ‘’beneficiários’’ do dito.

 

A arqueologia, que sabe cada vez mais complexo cuidar dos locais e dos sítios de proveniência dos materiais musealizáveis, por norma pouco acessíveis na rede dos itinerários turísticos, abandonados, sem curadores nem guardas, tragados por matagais, entregues à tutela precária ou à negligência de vizinhos ou de forasteiros, desloca progressivamente a sede da sua consagração para os museus, para as colecções e para os artefactos.

 

Sem dúvida, o Museu Nacional de Arqueologia tem incalculavelmente mais consumidores de vinho de marca, de queijos da serra e de mel silvestre do que qualquer ruína arqueológica agonizante num matagal ou no fundo de uma lago alpino alentejano.

As múmias vendem sem dúvida mais canecas e saca rolhas do que as ruínas de Tróia ou de Miróbriga.

E, embora as múmias se possam ver em Paris, Madrid ou Londres, os turistas que vêm a Lisboa procuram mais as múmias do que o ouro ibérico.

 

A etologia do consumidor do património não é um dever ser. Mas é sem dúvida também o resultado da intervenção e das opções do ‘’produtor’’ do património para consumo.

Se o consumidor do património dispende mais tempo no ‘’shoping’’ do que nas galerias em frente dos objectos, se procura mais o espelho e se alucina com as suas próprias réplicas, o lenço de seda, o relógio, a caneta, foi porque o sortilégio do museu foi  - pelo museólogo ou pelo gestor comercial - deslocado do objecto musealizado para a réplica do consumidor, da múmia para o postal.

É neste modelo de análise que pretendemos que se entenda o que é para a arqueologia um tesouro. Na sua ambiguidade de binómio, endeusado, ou diabolizado.

E que se entenda porque razão à arqueologia incomodou tanto o tesouro ‘’egípcio’’ do BPN que preferiu perdê-lo a confrontar-se com ele.

 

O tesouro ‘’egípcio’’ do BPN incomodou sobretudo os arqueólogos porque se convenceram de que era um ‘’tesouro’’ privado que concorreria com os ‘’tesouros’’ públicos entronizados pelo mercado de património sobre os quais os arqueólogos, na sua coesão corporativa, alegam o direito de exercer a tutela, administrando a sua ‘’exploração’’.

 

Estavam enganados. Porque foi a sua arrogante sobranceria que atirou com o tesouro ‘’egípcio’’ do BPN para fora do domínio da sua tutela e alçada. Agora, definitivamente, porque se perdeu.

 

Na verdade, o episódio do tesouro ‘’egípcio’’ é bem o paradigma e metáfora do que se passou com o BPN genericamente.

Porque queriam politicamente consumir a matéria que lhes servisse de arremesso nas suas ‘’revanches’’ e jogadas políticas, os portugueses perderam o paradeiro a uns milhares de milhões de Euros que jamais serão resgatáveis.

 

Para que a comunicação social e os ‘’lobbies’’ políticos pudessem assegurar a tutela sobre meia dúzia de episódios mesquinhos, mas que eram da sua exclusividade.

Agora só resta a PARVALOREM fugir para uma ‘’offshore’’ para fazer companhia ao tesouro ‘’egípcio’’.

 

Vamos tentar entender nos seus estratos mais profundos este fenómeno cultural.

 

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Relacionados:

. A "colecção egípcia do BPN" - Algo que eu prefria não ter escrito.

. O que eu preferia não ter escrito II - Tesourinho tesourão, vem aqui à minha mão


 

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